Fatores de virulência e resistência antimicrobiana em Pseudomonas spp. sob uma perspectiva de Saúde Única
Antibiótico. Agropecuária. Colistina. Solo.
O gênero Pseudomonas spp. abrange bactérias Gram-negativas, ubíquas, reconhecidas por sua alta plasticidade genética e por acumular genes inerentes e/ou adquiridos associados à virulência e à resistência antimicrobiana (RAM), os quais são essenciais para sua colonização e persistência em diferentes ambientes, como o solo, água, animais e seres humanos. A circulação dessas bactérias entre diferentes nichos ecológicos favorece a disseminação desses genes por transferência horizontal de genes (THG) que, por consequência, torna esse gênero um excelente modelo de estudos de adaptação microbiana e RAM em diferentes nichos ambientais e humanos. Baseado nisso, para o Capítulo I, foram selecionadas 53 cepas de Pseudomonas spp., em que 40 foram isoladas de solos agrícolas (38) e de mata nativa (2) em São José do Vale do Rio Preto, Rio de Janeiro, além de 13 serem oriundas de solos salinos de Guaratiba, região dos Lagos/RJ. Dessas, 53% apresentaram resistência a pelo menos um antimicrobiano, com destaque para o aztreonam (36%), ciprofloxacino (23%) e meropenem (19%). Além disso, foi observada multirresistência em cepas de solos agrícolas. A resistência à colistina foi confirmada em 19% das cepas. Foi verificado que as dez cepas positivas para resistência nos dois testes (COL-AS e COL-DT) tiveram concordância categórica de 100% (10/10) com o teste de padrão ouro (MDC). Além disso, três cepas (SI276, SI277, SI283) obtiveram a maior CIM, uma vez que ultrapassaram o limite do teste, que seria de 512 mg/L, valor extremamente elevado quando comparado ao ponto de corte clínico (>4mg/L). Além disso, 89% dessas bactérias apresentaram pelo menos um fator de virulência, com predominância das atividades lipolítica (47%), proteolítica (45%) e hemolítica (32%). No Capítulo II, foi realizada uma análise in silico com 1955 genomas de Pseudomonas spp. provenientes de origens humana, animal, solo e água. Os genomas de origem humana e animal apresentaram maior abundância e diversidade de genes de resistência antimicrobiana e fatores de virulência quando comparados aos de origem ambiental. Foram identificados 249 genes de virulência distintos, sendo fliG e flgG os mais prevalentes (99,4%), enquanto os genes de resistência adquirida mais frequentes foram vanW (67%), blaOXA (64%), aph(3') (63,5%) e blaOXA50-like (63,2%). Além disso, foi observada correlação positiva significativa entre o número de genes de resistência e fatores de virulência (ρ = 0,67; p = 3,45 × 10⁻²⁵⁴). Em conjunto, os resultados demonstram que Pseudomonas spp. presentes em diferentes ambientes constituem importantes reservatórios de genes de resistência antimicrobiana e fatores de virulência, sendo capazes de expressar fenótipos compatíveis com esses determinantes. Dessa forma, de acordo com os dados fenotípicos e da análise in silico, os ambientes naturais e antropizados podem atuar como fontes de manutenção e disseminação desses mecanismos de defesa bacteriano. Portanto, faz-se necessário uma vigilância contínua e abordagens integradas baseadas no conceito One Health para o monitoramento e controle da circulação de microrganismos patogênicos e da resistência antimicrobiana.