Solos orgânicos em ambientes altomontanos no Sudeste do Brasil: formação, classificação e relações com a história da vegetação
Organossolos. Relação Solo-Paisagem. Mudanças Climáticas. Quaternário.
Os Organossolos Fólicos se distinguem das demais subordens por apresentarem condição de drenagem livre e serem restritos a ambientes altomontanos, onde as condições de baixa temperatura, distrofismo e elevada acidez favorecem o acúmulo de material orgânico pela redução da atividade biológica. A pesquisa desenvolvida nessa tese busca contribuir para o entendimento da gênese desses solos, através do estudo de 14 perfis descritos e coletados em ambientes altomontanos na região da Serra da Mantiqueira, no Sudeste do Brasil. As seguintes hipóteses foram levantadas: (i) a formação de solos orgânicos em condições de drenagem livre, está relacionada com a história da vegetação e variações das condições climáticas no passado; (ii) o clima frio e úmido dos ambientes altomontanos na região sudeste do Brasil resulta em solos com propriedades ândicas (não-alofânicos). Assim, o objetivo dessa pesquisa foi propor um esquema geral de formação desses solos, com base no entendimento da relação solo-paisagem e na reconstituição da história da vegetação. Os objetivos específicos foram: a) descrever e caracterizar os atributos morfológicos, físicos e químicos de Organossolos Fólicos em ambientes altomontanos no Sudeste do Brasil; b) verificar a ocorrência de propriedades ândicas nos solos dessa região; c) reconstituir as mudanças paleoambientais e relacioná-las com a gênese dos solos; d) identificar os processos pedogenético envolvidos na formação dos Organossolos Fólicos. A formação de solos orgânicos em condições de drenagem livre, está relacionada com a história da vegetação e variações das condições climáticas no passado. Com base nos registros de fitólitos, δ13C, estoques de carbono derivados de plantas C3 e C4, e datações 14C foi possível inferir 4 momentos ambientais: Fase I (antes de ~18.900 anos AP), clima marcadamente mais frio e seco do que o atual, com predomínio de vegetação de campos subtropicais e ocorrência de incêndios; Fase II (~18.900 anos AP a ~11.100 anos AP), ligeiro aumento de umidade, diminuição de incêndios e expansão de formações florestais, com rara presença de Araucaria angustifolia; Fase III (a partir de ~11.100 anos AP) aumento da umidade, com estabelecimento das condições atuais (clima frio e úmido, típico dos ambientes altomontanos), e marcada presença de Araucaria nas florestas altomontanas; Fase IV (presente) mudanças ambientais relacionadas com o aumento da ocorrência de incêndios, redução de indivíduos de Araucaria e aumento de Bambusoid, Arecaceae e plantas C4, possivelmente ligada à atividades humanas. Os Organossolos Fólicos nos ambientes altmontanos da Serra da Mantiqueira são formados por acumulação de liteira (resíduos da vegetação) e podem ocorrer dois pedoambientes: (1) diretamente sobre rochas nos campos de altitude, pelos processos de adição e transformação da liteira, que constituem o material parental desses solos; e (2) em florestas altomontanas, com horizontes hísticos formados sob horizontes minerais. Em ambos os casos, o clima frio e úmido e a vegetação (organismos) são os principais fatores de formação, não apenas reduzindo a decomposição da matéria orgânica, mas influenciando as propriedades físicas e químicas dos solos. O clima frio e úmido dos ambientes altomontanos na região sudeste do Brasil resulta em solos com propriedades ândicas (não-alofânicos).