Indicadores de qualidade do solo em áreas com diferentes sistemas de uso e ocupação em são Francisco do Itabapoana, RJ.
Qualidade do solo; Mata Atlântica; Análise Multivariada.
A conversão de ecossistemas naturais em sistemas agrícolas, quando realizada sem planejamento conservacionista, pode comprometer a funcionalidade do solo e reduzir sua capacidade de prestar serviços ecossistêmicos. No Norte Fluminense, os solos de tabuleiros costeiros apresentam naturalmente limitações físicas e químicas, as quais são frequentemente agravadas por práticas de manejo inadequadas. Diante desse contexto, o presente estudo teve como objetivo selecionar propriedades físicas, químicas e biológicas sensíveis às mudanças no uso da terra, para atuarem como Indicadores de Qualidade do Solo (IQS), permitindo identificar e comparar as alterações promovidas por diferentes sistemas agrícolas representativos do município de São Francisco do Itabapoana, RJ. Foram avaliados quatro sistemas de uso: Fragmento de Floresta Estacional Semidecidual (FF), utilizado como referência ecológica; Pastagem (PA); Monocultivo de cana-de-açúcar (MC); e Monocultivo de mandioca (MM). As amostras de solo foram coletadas nas profundidades de 0,00–0,10 m, 0,10–0,20 m e 0,20–0,40 m, totalizando 29 propriedades analisadas. Os dados foram submetidos a análises univariadas (teste LSD e Kruskal-Wallis), correlação linear de Pearson e análises multivariadas (Componentes Principais e Agrupamento Hierárquico). Foram identificados 18 IQS, dos quais os mais relevantes — por refletirem impactos em duas ou mais camadas — foram: saturação por bases (Valor V), acidez potencial (H+Al), alumínio trocável (Al³⁺), areia fina (ARF), potássio trocável (K⁺) e carbono orgânico total (COT). A área de FF apresentou associação positiva com a maioria dos IQS, destacando-se como referencial de solo saudável e autossustentável. Entre os sistemas agrícolas, a PA configurou-se como o de maior degradação, com baixos teores de nutrientes, CTC e carbono; a MM ocupou posição intermediária, com perda expressiva de carbono e ausência de aporte de serapilheira; e a MC revelou a menor intensidade de degradação, mantendo teores de COT, ESTC, COAM e MOL equivalentes aos da FF em algumas camadas. As análises multivariadas evidenciaram nítida separação entre a FF e as áreas agrícolas, ordenadas em um gradiente crescente de qualidade do solo: PA < MM < MC << FF. A dissimilaridade foi mais acentuada na camada superficial (0,00–0,10 m), associada às diferenças no estoque e na dinâmica da matéria orgânica. Conclui-se que a substituição da vegetação nativa altera significativamente a funcionalidade do solo até 0,40 m de profundidade, e que os IQS selecionados apresentam elevado potencial para compor protocolos de monitoramento da qualidade do solo em condições tropicais, subsidiando práticas de manejo regenerativo e políticas públicas voltadas à conservação do solo.