Estudos no reposicionamento do fármaco nimesulido para o tratamento da doença de Chagas: preparação de derivados, avaliação da atividade tripanocida e investigações sobre prováveis mecanismos de ação.
Trypanosoma cruzi, anti-inflamatórios não-esteroidas, nitro-aromáticos, fármacos antiparasitários, piperina, hibridação molecular
O tratamento da doença de Chagas é feito apenas por dois medicamentos, o nifurtimox (1) e o benzonidazol (2). Contudo, além destes fármacos não serem eficazes em todas as fases da infecção, apresentam severos efeitos colaterais, o que justifica a busca de novas alternativas para o tratamento desta grave enfermidade. Dados da literatura descrevem a interferência de fármacos anti-inflamatórios não-esteroidais no processo de infecção por tripomastigotas de Trypanosoma cruzi sobre células de mamíferos. O mecanismo de ação destes fármacos ocorre sobre as isoformas da enzima ciclo-oxigenase, importantes para o estabelecimento da infecção do parasito. Adicionalmente, são bem conhecidos os efeitos tóxicos de compostos nitro-aromáticos, sendo o T. cruzi bastante afetado pela ação dessas moléculas em seu equilíbrio redox. De posse destas informações, propusemos neste trabalho a investigação da atividade tripanocida do fármaco nimesulido (3), anti-inflamatório não-esteroidal, que possui em sua estrutura o grupamento toxicofórico nitro-aromático. A abordagem de reposicionamento de fármacos, como a que apresentamos aqui visando à possível atividade tripanocida do nimesulido (3), é um recurso importante na descoberta de fármacos aplicáveis ao tratamento de doenças negligenciadas. Outra estratégia, desenvolvida em paralelo, envolveu o emprego da hibridização molecular na preparação de dois derivados do nimesulido (3) com a amida natural piperina (5). Os resultados obtidos nas avaliações biológicas realizadas indicaram atividade antiparasitária do nimesulido (3) sobre as diferentes formas evolutivas do parasito. Além disso, dos dois híbridos moleculares construídos, o híbrido H1, no qual foi preservada a porção nitro aromática, apresentou ação tripanocida, enquanto que o híbrido H2 perdeu significativamente a atividade com a retirada do grupo nitro de sua estrutura, o que permitiu apontar para a porção nitro presente no nimesulido (3) e no híbrido H1 como porção farmacofórica, validando as hipóteses deste estudo.