RURALIDADES EM DISPUTA: UMA ETNOGRAFIA SOBRE O CAFÉ ESPECIAL E AS RECONFIGURAÇÕES DO MUNDO RURAL EM CRISTINA (MG)
café especial; ruralidades; economia moral; identidade rural; diferenciação simbólica; cooperativismo; Sul de Minas Gerais; etnografia
Esta pesquisa investiga como a expansão do mercado de cafés especiais reconfigura identidades rurais, disputas de autenticidade e formas de reconhecimento entre cafeicultores familiares de Cristina (MG), a partir de uma abordagem etnográfica e comparativa centrada nos bairros Sertãozinho e São Domingos. Partindo de uma perspectiva histórico-sociológica, o trabalho situa a emergência dos cafés especiais no contexto das transformações do capitalismo contemporâneo, marcado pela valorização de atributos simbólicos como autenticidade, qualidade e sustentabilidade. Argumenta-se que, nesse novo regime de diferenciação, o valor do café desloca-se da esfera estritamente produtiva para incorporar dimensões narrativas, morais e afetivas, reordenando hierarquias e formas de reconhecimento no mundo rural. O estudo adota uma abordagem etnográfica comparativa e multi-situada, centrada nos bairros Sertãozinho e São Domingos, que, embora compartilhem trajetórias históricas semelhantes, apresentam formas distintas de inserção no mercado de cafés especiais. Em Sertãozinho, observa-se maior integração às redes cooperativas e aos circuitos internacionais de certificação e premiação, configurando uma economia moral da concorrência, na qual prestígio e distinção se articulam à racionalidade técnico-institucional. Em São Domingos, por sua vez, predominam redes de reciprocidade e moralidades comunitárias que tensionam a lógica competitiva, enfatizando pertencimento, solidariedade e continuidade familiar como critérios de valor. A noção de economia moral, inspirada em E. P. Thompson e Viviana Zelizer, constitui eixo analítico central para compreender como valores econômicos e juízos morais se entrelaçam na definição do que é considerado “bom café”, “bom produtor” e “boa vida rural”. Articulada às contribuições de Bourdieu sobre campo e distinção, e aos estudos de ruralidade de Maria José Carneiro, a pesquisa evidencia que o mercado de cafés especiais não apenas introduz novas técnicas produtivas, mas também institui gramáticas de reconhecimento que produzem hierarquias internas e reconfiguram identidades. Ao analisar Cristina como um microcosmo das transformações globais da cafeicultura, o trabalho contribui para a sociologia econômica e para os estudos rurais ao demonstrar que a diferenciação mercadológica opera como dispositivo de reordenação simbólica e social. A expansão do café especial, longe de representar mera modernização produtiva, constitui um processo moral e político no qual ruralidades são disputadas, reinventadas e hierarquizadas. Assim, a pesquisa propõe compreender o rural não como resíduo da modernidade, mas como espaço dinâmico de agência, conflito e produção de sentidos no capitalismo contemporâneo.