Patologia de primatas neotropicais
Patologia, Platyrrhini; Primatas do Novo Mundo.
O Brasil abriga a maior diversidade de primatas neotropicais do mundo. Estudos patológicos retrospectivos constituem uma ferramenta essencial para a conservação das espécies, pois permitem identificar padrões de doenças associados a diferentes condições ambientais e de manejo. Descrever as alterações patológicas espontâneas que acometem primatas neotropicais pode favorecer a conservação das espécies ao contribuir para a definição de diagnósticos clínico-patológicos precoces e assertivos. Nesta tese, será conduzido um estudo retrospectivo, abrangendo o período de janeiro de 2019 a dezembro de 2024, do acervo diagnóstico de necropsias e biópsias do Setor de Anatomia Patológica da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (SAP/UFRuralRJ). O objetivo deste trabalho é descrever as causas espontâneas de mortalidade e morbidade em primatas neotropicais. Para isso, será realizada a descrição morfológica e epidemiológica das afecções que acometem primatas neotropicais mantidos sob cuidados humanos e em condições de vida livre. Neste período, foram realizados 497 exames de necropsia e histopatologia em primatas neotropicais, dos quais 70,6% (351/497) foram considerados conclusivos. Alterações hepatobiliares foram observadas em 172 casos e, destes, 52% dos distúrbios foram associados a causas de morte, sendo principalmente relacionados a distúrbios inflamatórios e necróticos severos. Independentemente da etiologia, as desordens hepatobiliares foram consideradas as principais causas de morte entre os indivíduos da família Pitheciidae. As mortes de pitecídeos mantidos sob cuidados humanos foram atribuídas principalmente a causas infecciosas, seguidas por não infecciosas e por inflamatórias sem etiologia específica. Doenças não infecciosas foram consideradas a principal causa de morte entre macacos-prego robustus (Sapajus spp.) nesse período. Nessa categoria, houve alta prevalência entre indivíduos de vida livre e os principais processos incluíram politraumatismos, doenças degenerativas e lesões eletrotérmicas. Este estudo também descreve interações intraespecíficas fatais, consideradas infanticídios, em Sapajus spp. mantidos sob cuidados humanos. A infecção sistêmica por Toxoplasma gondii foi considerada a principal causa de morte entre atelídeos ameaçados de extinção em colônias conservacionistas, o que enfatiza a necessidade de medidas de profilaxia e controle desta enfermidade para a conservação das espécies. Nos casos de toxoplasmose em atelídeos ameaçados, hepatite necrótica foi observada em 100% dos casos. A prevalência geral de neoplasias do sistema reprodutivo feminino em primatas neotropicais foi de 2,6%. As neoplasias ovarianas observadas neste estudo foram classificadas como lesões sem significado clínico, enquanto os adenocarcinomas uterinos foram considerados importantes causas de morte. Nossos achados sugerem que não há diferenças significativas na prevalência de neoplasias ovarianas e uterinas espontâneas entre primatas neotropicais. Os resultados obtidos por meio deste estudo patológico retrospectivo revelam a dinâmica das desordens espontâneas em populações de primatas in situ e ex situ e contribuirão para a conservação dessas populações.