Avaliações clínico-patológica e microbiológica da cicatrização de feridas cutâneas contaminadas tratadas com hidrogel a base de óleo essencial de Melaleuca alternifolia e extrado de Aloe vera
Ferida; Babosa; Tea tree; Cicatrização; Bactericida
A cicatrização é um processo complexo que envolve mecanismos celulares, moleculares e bioquímicos; e tem por objetivo restaurar a integridade da pele. A otimização do processo de cicatrização deve-se ao conhecimento médico veterinário na indicação de condutas terapêuticas acertivas, utilizando fármacos adequados e de forma racional; evitando reações adversas medicamentosas, intoxicações e principalmente resistência bacteriana, levando a um maior custo de tratamento e ao retardamento do reparo tecidual. Há cada vez mais investimentos financeiros e acadêmicos estudos pré-clínicos e clínicos nas linhas de pesquisa em farmacologia e biomaterias, visando a confecção de novos tipos de curativo, como os hidrogéis e alginato de cálcio. Seguindo também essa linha de pensamento, cada vez mais se produzem pesquisas utilizando plantas medicinais como alternativas de tratamentos na cicatrização de feridas devido às suas propriedades antisséptica, bactericida e cicatrizante. Nesta categoria se destacam Aloe vera (Babosa) e Melaleuca alternifolia (Tea tree). O objetivo do presente estudo foi avaliar o quadro clínico-patológico e microbiológico da cicatrização de feridas cutâneas contaminadas tratadas com hidrogel a base de óleo essencial de M. alternifolia e extrato de A. vera. O experimento foi realizado na Universidade Estácio de Sá e o projeto foi aprovado pela CEUA (001/2023) da referida instituição. Para o estudo utilizaram-se vinte e quatro ratos Wistar (Rattus norvegicus). Foram realizadas duas feridas cirúrgicas em cada animal (cranial e caudal) e as incisões foram contaminadas com cepa multirresistente de Staphylococcus aureus. Os animais foram divididos em dois grupos e tratados de forma aberta: G1G2 com doze animais (G1 - ferida cranial tratada com soro fisiológico 0,9% duas vezes ao dia e G2 - ferida caudal tratada com pomada de colagenase com cloranfenicol duas vezes ao dia) e G1G3 com doze animais (G1 - ferida cranial tratada com soro fisiológico 0,9% duas vezes ao dia e G3 - ferida caudal tratada com hidrogel de extrato de A. vera com óleo essencial de M. alternifolia duas vezes ao dia. Em ambos os grupos, quatro animais foram eutanasiados no terceiro dia de tratamento, quatro foram eutanasiados no sétimo dia e quatro foram eutanasiados no décimo quarto dia. Os animais foram eutanasiados com isoflurano 5% até a indução da hipnose e após foi aplicado tiopental na dose de 120mg/kg por via intraperitoneal. O processamento do material, bem como as colorações e confecção das lâminas histológicas foram realizados no laboratório de Histopatologia do Setor de Anatomia Patológica da UFRRJ. Foram processados fragmentos de duas feridas cirúrgicas cutâneas (cranial e caudal), de cada rato, recebidas em formol tamponado a 10%, além do fígado, baço e rins. Após clivados, os fragmentos foram desidratados em uma série de concentração de álcool etílico em diluições crescentes até o álcool absoluto, clarificados em xilol e incluídos em parafina previamente aquecida. Cortes histológicos foram obtidos em micrótomo ajustado para quatro micrômetros de espessura e submetidos às técnicas de Hematoxilina-eosina (HE), além da coloração de Tricrômico de Masson (fragmentos de pele). As análises foram realizadas em microscópio óptico. Foram avaliados formação crostosa, infiltrado inflamatório, deposição de matriz extracelular, neovascularização e reepitelização, conforme protocolo publicado por Estevão et al. (2019). A análise consistiu em descrição da lâmina e análise comparativa dos grupos, diferenciando qualitativamente em escores de 0 a 3 para cada parâmetro avaliado: zero (0) representando ausência do parâmetro testado (pele íntegra); 1, discreta; 2, moderada; e 3, intensa ou completa formação. Quanto à histologia das feridas, observou-se que as feridas G3 apresentaram deposição de colágeno e área de reepitelização superiores às feridas G2. Morfologicamente, as feridas do G3 produziram menos crosta do que as feridas do G2 e, apesar de ter mantido o aspecto delas mais seco, a crosta produziu uma barreira que protegia na perda de eletrólitos, fluidos e entrada extrínseca de agentes nocivos. Com relação ao infiltrado inflamatório, as feridas tratadas com pomada comercial apresentaram uma menor taxa quando comparado às tratadas pelo hidrogel fitoterápico e, no controle microbiológico observou-se nas feridas do G2 redução da taxa de microorganismos de 25% e, nas feridas do G3, redução de 17%. Desta forma, pode-se sugerir que o hidrogel fitoterápico proposto no presente estudo apresentou resultados satisfatórios comparados à pomada, pois demonstrou ter boa capacidade cicatrizante, apesar do baixo potencial bactericida.