Avaliação do efeito do consumo materno de dieta hiperlipídica sobre a função cardíaca da prole adulta de ratos.
Programação metabólica, insuficiência cardíaca, angiotensina II e receptor AT2
A nutrição desbalanceada é um dos fatores de risco para obesidade e síndrome metabólica. Gestantes com sobrepeso, advindos de hábitos alimentares inadequados, podem desencadear distúrbios metabólicos e cardiovasculares na prole. Anteriormente, nosso laboratório demonstrou que o consumo materno de dieta hiperlipídica, antes e durante a gestação e lactação, promoveu maior massa corporal, adiposidade, hiperleptinemia, hipertrofia ventricular esquerda e alterações na expressão gênica de marcadores de hipertrofia (HC) e insuficiência cardíaca (IC) na prole ao desmame. Além de disfunção sistólica aos 30 dias de idade. As alterações cardíacas foram acompanhadas por aumento no conteúdo proteico do receptor AT1 para angiotensina II (AngII) somente nas fêmeas da prole ao desmame. O sistema renina angiotensina (SRA) expresso no coração parece estar envolvido no processo pró- e anti-hipertrófico e no efeito simpatoexcitatório na IC. Este trabalho teve como objetivo investigar se o consumo materno de dieta hiperlipídica promove alterações na função cardíaca da prole na fase adulta e correlacionar este fenótipo a modificações no SRA e a sensibilidade do coração ao sistema simpato-adrenérgico desses animais Para isto ratas Wistar receberam dieta controle (9% lipídeos, grupo C) ou hiperlipídica (29% lipídeos, grupo DH) por 8 semanas antes do acasalamento, durante a gestação e lactação. Aos 21 dias de vida, as proles foram desmamadas e separadas em prole C ou prole DH. Ambas as proles receberam somente dieta controle desde o desmame até aos 180 dias de idade. O ganho de peso corporal das proles foi acompanhado desde o nascimento; e a ingestão alimentar foi avaliada do período pré-púbere até os 180 dias de idade. A função cardíaca das proles aos 180 dias de idade foi avaliada pelo ecocardiograma e pela técnica do coração isolado (Langendorff) após tratamento com isoproterenol em doses crescentes. Os animais foram eutanasiados pelo método de guilhotina, e o coração e os tecidos adiposos branco (retroperitoneal, inguinal e perigonadal) foram pesados. A parede livre do ventrículo esquerdo foi utilizada para avaliar a expressão proteica de componentes do SRA (renina, angiotensinogênio, ECA1) e dos receptores AT1 e AT2 para AngII e β1-adrenérgico, através da técnica de Western Blotting. Fêmeas e machos da prole DH apresentaram disfunção sistólica (redução da fração de ejeção e débito sistólico), aos 180 dias de idade, sem alterações no peso corporal ou na adiposidade. Apenas os machos da prole DH apresentaram alterações estruturais do coração e maior responsividade cardíaca ao estímulo adrenérgico. A expressão proteica de AT2 estava maior nas fêmeas adultas da prole DH, e reduzida nos machos. Estes resultados sugerem que o consumo materno de dieta hiperlipídica promove disfunção sistólica em fêmeas e machos da prole adulta, no entanto os machos apresentam um mecanismo compensatório através do sistema adrenérgico. Além disso, sugerimos que a alteração na expressão proteica do receptor AT2 nas fêmeas seja um efeito protetor, enquanto que a redução desse receptor nos machos da prole adulta esteja envolvida com o processo de remodelamento cardíaco.