Estudo da Dipterofauna (Calliphoridae e Mesembrinellidae) em áreas florestal, rural e urbana do estado do Rio de Janeiro
Bioindicadores, Gradiente ambiental, Efeito de borda
A Mata Atlântica é um bioma diverso, incluindo mais de 15.000 espécies de plantas
vasculares endêmicas. Está sob constante pressão devido à ação humana, resultando na
fragmentação de seu habitat, intensificando o efeito de borda. Objetivou-se estudar a fauna de
Calliphoridae e Mesembrinellidae em três ambientes, florestal, rural e urbano, no estado do
Rio de Janeiro; estudar o efeito de borda no ambiente florestal; avaliar a atratividade destes
dípteros por dois estágios de decomposição de isca, e identificar bioindicadores para cada
ambiente. Foram instaladas duas armadilhas em cada ponto amostral contendo isca de fígado
bovino fresco. O efeito de borda foi avaliado em cinco pontos amostrais ao longo de 800
metros da borda em direção ao interior da mata no Parque Estadual dos Três Picos, com a
caracterização vegetal de cada ponto. Para estudar atratividade da isca em diferentes estágios
de decomposição e a sinantropia, duas armadilhas contendo isca de fígado bovino com 48
horas de decomposição foram adicionadas, considerando o ponto mais interno do ambiente
florestal, e dois pontos de coleta adicionais: ambiente rural, campus Seropédica (UFRRJ);
ambiente urbano, campus Urca (UNIRIO). As coletas foram trimestrais, entre junho/2021 e
maio/2023. Os espécimes foram sacrificados utilizando solução mortífera, transferidos para o
laboratório e identificados taxonomicamente. Foram coletados 5.476 dípteros, sendo cinco
espécies de Calliphoridae (77,1%) e 11 de Mesembrinellidae (22,9%). Sete espécies
ocorreram comumente, uma raramente, cinco constantes e sete acidentais. Huascaromusca
aneiventris e Paralucilia nigrofacialis demostraram preferência por ambientes de maior
cobertura de dossel. Eumesembrinella cyaneicyncta e Hemilucilia benoisti foram relacionadas
aos pontos a 0 e 200 metros. Laneella nigripes apresentou-se mais abundante nos pontos mais
internos. Mesembrinella bellardiana apresentou-se mais abundante nos pontos intermediários.
Hemilucilia segmentaria e Lucilia eximia demonstraram-se abundantes ao longo do gradiente.
Mesembrinella semihyalina se correlacionou negativamente com o CAP e densidade vegetal.
Hemilucilia benoisti se correlacionou negativamente com cobertura de dossel. Espécies do
gênero Hemilucilia, Lucilia eximia, P. nigrofacialis, M. bellardiana e M. peregrina se
correlacionaram com a precipitação, temperatura e/ou umidade relativa do ar. O perfil de
diversidade de Rényi variou ao longo do período de coleta, com maior riqueza e diversidade
no inverno e menor no outono. La. nigripes mostrou preferência por iscas de fígado com 48
horas de putrefação. As espécies de Mesembrinellidae ocorreram exclusivamente no ambiente
florestal, além de H. benoisti e P. nigrofacialis, sendo assinantrópicas. Hemilucilia
segmentaria e H. semidiaphana também foram assinantrópicas, porém ocorreram nos
ambientes urbano e/ou rural. Os gêneros Chrysomya e Cochliomyia, e Lucilia cuprina, foram
sinantrópicos. Identificou-se oito espécies potencialmente bioindicadoras em ambientes
florestais, destacando-se La. nigripes, M. bellardiana e L. eximia, e quatro para ambientes
rurais, destacando-se Cochliomyia macellaria. Trata-se de estudo inédito no PETP. São
informações valiosas sobre a ecologia e a distribuição de Calliphoridae e Mesembrinellidae
em diferentes ambientes, sendo relatada a primeira ocorrência de M. currani neste bioma,
bem como seu potencial como indicadores ambientais e seu comportamento em relação ao
estágio de decomposição da isca. Essas descobertas podem contribuir para estudos de
conservação e monitoramento ambiental na região estudada.