Estrutura de metacomunidade de morcegos filostomídeos (Mammalia, Chiroptera) na Mata Atlântica brasileira
Chiroptera, composição de espécies, gradiente ambiental espacialmente estruturado, grupos funcionais, precipitação, região fragmentada, substituição de espécies, temperatura
Ecologia de metacomunidades tem fornecido o entendimento de como múltiplas
espécies interagem, variam e estão organizadas em conjuntos de comunidades ao longo
de gradientes ambientais. A composição das espécies é determinada por combinações de
processos ambientais e espaciais, e as propriedades emergentes das distribuições das
espécies formam padrões espaciais (estruturas de metacomunidade). Nós usamos 54
espécies de morcegos da família Phyllostomidae e 30 localidades (com ≥ 19 espécies)
ao longo da Mata Atlântica no Brasil para: (1) determinar a distribuição das espécies,
(2) caracterizar o padrão de metacomunidade e (3) identificar as características
ambientais e espaciais que deram origem a tal padrão. Os morcegos foram analisados
em termos de metacomunidade quanto a todas as espécies e à grupos funcionais
(espécies carnívoras e espécies herbívoras). Como variáveis ambientais, usamos 19
variáveis climáticas que compreendem um conjunto de variações na temperatura e na
precipitação, e a latitude e a longitude para criar variáveis espaciais chamadas ‘Mapas
de autovetor de Moran’, que representam variações espaciais de ampla e fina escala. Os
Elementos de Estrutura de Metacomunidades (coerência, substituição de espécies e
coincidência de limites) foram usados para determinar o melhor padrão idealizado de
distribuição des espécies em relação à distribuição empírica dos morcegos. A Análise de
Correspondência Canônica e a Partição de Variância foram usadas para determinar
respectivamente o gradiente ambiental latente e a contribuição relativa das
características da temperatura, da precipitação e do espaço na composição das espécies.
Além disso, testamos o efeito da floresta Ombrófila e da floresta sazonal sobre os
grupos de morcegos filostomídeos usando o teste de Kruskal-Wallis. As análises e testes
foram conduzidos nos programas R e PAST. Tanto todas as espécies de morcegos
filostomídeos como os morcegos carnívoros e herbívoros exibiram padrões de
metacomunidade com coerência positiva, indicando que a maioria das espécies de cada
grupo de morcegos respondeu a um gradiente ambiental latente. Porém, a
metacomunidade com todas as espécies mostrou um padrão quase-clementsiano, com os
carnívoros exibiu uma estrutura quase-aninhada com perda aleatória de espécies e com
os herbívorous mostrou um padrão clementsiano. O gradiente ambiental detectado foi
composto pela variação conjunta na temperatura, na precipitação e no espaço, e foi
pervasivo em todos os grupos de morcegos. Esses fatores juntos explicaram de 48,3% a
66,2% da variação na composição das espécies entre as localidades considerando os
grupos de morcegos. Nenhum efeito puro das variáveis ambientais foi encontrado para
todas as espécies ou para os morcegos carnívoros. Contudo, características isoladas do
espaço e da precipitação foram puramente significativas para os morcegos herbívoros.
Os padrões quase-clementsiano e clementsiano evidenciados por todas as espécies e
pelos morcegos herbívoros indicam que as espécies com distribuições similares
compartilham características ecológicas e evolutivas formando grupos de espécies ao
longo do gradiente observado. Os compartimentos clementsianos foram delimitados por
processos históricos antropogênicos, como localidades contendo fragmentos originais
de Mata Atlântica e localidades contendo alterações espaciais relacionadas ao uso da
terra pelo homem. O padrão quase-aninhado com perda aleatória de espécies
apresentado pelos carnívoros indica que os limites de distribuição das espécies foram
determinados pela tolerância ambiental espécie-específica desses morcegos ao longo do
gradiente observado. Morcegos filostomídeos apresentaram padrões não-aleatórios de
distribuição que são moldados por um gradiente ambiental espacialmente estruturado ao
longo do bioma Mata Atlântica no Brasil. Analisar grupos funcionais de espécies
fornece informações ecológicas adicionais sobre as distribuições das espécies que são
obscurecidas quando é considerado apenas um grupo funcionalmente heterogêneo de
espécies. Por fim, a fragmentação do habitat associada às atividades do homem
provavelmente desempenham um papel crucial na distribuição atual das espécies de
filostomídeos ao longo da Mata Atlântica no Brasil.