Associações entre peixes, invertebrados bentônicos e variáveis ambientais em um sistema lagunar no Estado do Rio de Janeiro
Lagoas costeiras, concordância, comunidades
Lagoas costeiras são corpos de água rasas separados do mar por algum tipo de barreira ou mantendo limitada conexão com o ambiente marinho por canais naturais ou artificiais. Devido à elevada produtividade, esses ecossistemas comportam comunidades distintas como os peixes e invertebrados bentônicos, apresentando elevado valor ecológico e econômico. O objetivo desse trabalho foi avaliar variações na estrutura da ictiofauna e de invertebrados bentônicos ao longo de gradientes ambientais durante as estações seca e chuvosa, além de avaliar a associação entre esses dois grupos bióticos no Sistema Lagunar de Maricá, município de Maricá, estado do Rio de Janeiro. A hipótese testada foi de que variáveis ambientais determinam a distribuição de peixes e invertebrados bentônicos e que estas são influenciadas pela distância da conexão com o mar, bem como de que estas duas comunidades apresentam associação significativa. Três zonas foram estabelecidas para o programa de amostragem de acordo com a distância da conexão com o mar: Zona Interna (ZI, mais distante da conexão com o mar), Zona Central (ZC) e Zona Externa (ZE, mais próxima da conexão com o mar). As coletas do material biótico e medições das variáveis ambientais ocorreram em julho de 2018 (estação seca) e em janeiro de 2019 (estação chuvosa). A estrutura da comunidade de peixes diferiu significativamente entre as zonas, estações e apresentou significante interação entre esses dois fatores (p < 0.05), com maior abundância de peixes na ZI e menor na ZE. Atherinella brasiliensis e Anchoa januaria foram as espécies que mais contribuíram em todas as zonas e estações. Temperatura e salinidade foram as variáveis com maior poder explicativo independente dos preditores (49.29% e 18.29%, respectivamente) para a riqueza das espécies de peixes, apresentando correlação negativa e positiva, respectivamente. Os invertebrados bentônicos diferiram significativamente entre todos os fatores estudados. A maior abundância encontrada foi na ZI e a menor na ZE. Nereididae foi a família de poliquetas com maior contribuição na estação seca e nas zonas interna e central. Oligochaeta foi o grupo de invertebrado que mais contribuiu na estação chuvosa. Capitelidae apresentou maior contribuição na ZE. Para os invertebrados bentônicos, salinidade e temperatura foram as variáveis com maior poder explicativo independente dentre os preditores (40.47% e 18.85%, respectivamente). Diferentemente dos peixes, a salinidade apresentou correlação significativamente negativa e temperatura correlação positiva com a riqueza dos invertebrados. A correlação entre peixes e invertebrados bentônicos foi significativa, porém baixa, mesmo após o controle das variáveis ambientais.,. Os peixes e invertebrados bentônicos que compartilham o Sistema Lagunar de Maricá estão submetidos a condicionantes ambientais semelhantes, que parecem atuar de forma diferente em cada grupo. A maior parte da variação explicada da comunidade de peixes foi associada aos efeitos compartilhados pelas variáveis ambientais e pela estrutura espacial-zonas (16%), e uma fração negligível foi explicada exclusivamente pelos invertebrados (1%). Considerando os invertebrados bentônicos, maiores frações da variância (18%) foram associadas aos efeitos compartilhados pelos três fatores (peixes, variáveis ambientais e zonas), além de uma expressiva explicação adicional sendo compartilhada pelas variáveis ambientais e zona (10%) e pela explicação exclusiva das variáveis ambientais (13%). Compreender a forma como cada grupo taxonômico responde a variáveis ambientais e à estrutura espacial simultaneamente pode ser uma importante ferramenta no auxílio de tomada de decisões para a conservação de ecossistemas aquáticos em diferentes escalas.