Montagem de comunidades Ictioplanctônicas em dois estuários tropicais do semiárido brasileiro
Recrutamento, gradientes ambientais, desova, qualidade do habitat
Os ecossistemas estuarinos são reconhecidos pelas funções de berçários, rotas de migração, alimentação e proteção para os estágios iniciais de uma variedade de espécies de peixes. Estudos sobre os padrões de distribuição da comunidade ictioplanctônica dentro do ecossistema estuarino são de grande relevância para a compreensão da utilização do ambiente estuarino pelas espécies para completar seu ciclo de vida, através das interações com o meio abiótico e das relações bióticas entre as diferentes fases ontogenéticas. O presente estudo visou avaliar a variação espaço - temporal do ictioplâncton, quanto à densidade, riqueza e diversidade em relação às variações das características ambientais locais e de paisagem de dois estuários tropicais com diferentes pressões antrópicas. O estudo foi realizado nos estuários do rio Paraíba do Norte, situado em uma área densamente populosa com sinais visíveis de degradação ambiental, e nos estuários do rio Mamanguape, localizado em uma área de proteção ambiental, no Nordeste do Brasil. A hipótese testada foi a de que a precipitação é a principal variável preditora sobre a estrutura das comunidades ictioplanctônicas ao longo do gradiente estuarino. Isso se deve ao fato de que as variações do ciclo hidrológico, através da maior entrada de água doce no sistema, podem promover um aumento na qualidade de habitat tornando o ambiente mais tolerável para o estabelecimento das larvas de peixes, maximizando suas funções de berçário. As amostragens ocorreram em três zonas ao longo do canal principal de ambos os estuários, sendo realizados arrastos horizontais de subsuperfície acompanhados da aferição dos parâmetros ambientais, durante o ciclo anual entre 2018 e 2019. A variação espacial e temporal das assembleias larvais ao longo do canal principal de ambos os estuários foram determinadas por uma sequência de variáveis ambientais, destacando-se a temperatura, transparência, clorofila-a e concentração de nutrientes, as quais foram influenciadas pelas variações do ciclo hidrológico, tendo a precipitação como driver dos processos de distribuição e desova das espécies. A densidade larval foi maior durante a estação chuvosa em ambos os estuários, destacando a importância desse período para a dinâmica do ictioplâncton estuarino. A menor precipitação aliada às maiores concentrações de clorofila-a durante a estação seca favoreceu o estabelecimento de espécies marinhas, cruciais para o aumento da riqueza e diversidade de espécies ao longo do estuário do rio Mamanguape. Por outro lado, no estuário do rio Paraíba houve uma redução da riqueza e diversidade de espécies durante essa mesma estação. O que pode estar associado às maiores concentrações de poluentes registradas e às atividades agrícolas e de dragagem que contribuíram para a diminuição da qualidade do habitat impactando a comunidade ictioplanctônica nesse estuário. No presente estudo, os representantes da guilda ecológica Marinha Estuarina Dependente (MED) apresentaram-se em maior número, tendo como representantes espécies as das famílias Engraulidae e Clupeidae. Essa abundância de espécies dependentes do estuário enfatiza a importância desses ecossistemas como áreas de berçário.