Banca de QUALIFICAÇÃO: CLAUDIO NONA MORADO

Uma banca de QUALIFICAÇÃO de DOUTORADO foi cadastrada pelo programa.
DISCENTE : CLAUDIO NONA MORADO
DATA : 06/06/2025
HORA: 09:00
LOCAL: on-line
TÍTULO:

Etnoconhecimento de Pescadores Artesanais do litoral do estado do Rio de Janeiro sobre influências antrópicas na ictiofauna e a bioecologia de duas principais espécies alvo


PALAVRAS-CHAVES:

Ações antrópicas; Baías; Bioecologia; Etnoconhecimento; Ictiofauna; Nível trófico; Pescadores Artesanais


PÁGINAS: 65
RESUMO:

O Conhecimento Ecológico Local (CEL) dos Pescadores Artesanais é essencial para compreender as mudanças nos ambientes costeiros, contribuindo para a conservação da biodiversidade, gestão sustentável dos recursos pesqueiros, e redução de problemas socioambientais. Esse conhecimento foi utilizado para avaliar mudanças temporais na abundância de peixes, principais ações antrópicas relacionadas a tais alterações, médias temporais do nível trófico testando a hipótese da “sobrepesca na teia alimentar marinha” (fishing down marine food web), e também a bioecologia de duas espécies alvo principais, Mugil liza Valenciennes, 1836 e Micropogonias furnieri (Desmarest, 1823), nas 3 baías do estado do Rio de Janeiro (Baía de Sepetiba, Baía da Ilha Grande e Baía de Guanabara). Entrevistas semi-estruturadas foram realizadas com 267 entrevistados, em 59 comunidades tradicionais ao longo dessas 3 baías. Para a realização das entrevistas foi utilizada a técnica da “bola de neve”, onde ao término da entrevista o entrevistado indica outro Pescador Artesanal que considere apto a responder o questionário. O software IRAMUTEQ foi utilizado para tratamento e análise dos dados, facilitando a contextualização a nível coletivo das respostas individuais. A média temporal do nível trófico foi obtida a partir da comparação entre a média do nível trófico das espécies mais capturadas atualmente e a média do nível trófico das espécies mais capturadas há décadas. No capítulo 1 investigamos o CEL de 40 Pescadores Artesanais de duas comunidades na Baía de Sepetiba sobre a diversidade e abundância temporal de peixes, e indicaram que atualmente as espécies mais capturadas são: M. furnieri (67,5% dos entrevistados); M. liza (60%); Mugil curema Valenciennes, 1836 (27,5%); Aspistor luniscutis (Valenciennes, 1840) (25%); Isopisthus parvipinnis
(Cuvier, 1830) (22,5%); Centropomus undecimalis (Bloch, 1792) (17,5%); Oligoplites saliens (Bloch, 1793) (17,5%). As espécies que sofreram a maior redução da abundância ao longo das décadas foram: comberomorus brasiliensis Collette, Russo & Zavala-Camin, 1978 (50,25%); I. parvipinnis (48,5%); Pomatomus saltatrix (Linnaeus, 1766) (48,5%); Mycteroperca acutirostris (Valenciennes, 1828) (29,5%); Sardinella brasiliensis (Steindachner, 1879) (24,25%); Caranx hippos (Linnaeus, 1766) (24,25%); Pogonias cromis (Linnaeus, 1766) (23,25%); O. saliens (21,5%). As maiores abundância e diversidade de peixes foram relacionadas com águas mais quentes, e ventos predominantes de norte. E as possíveis causas antrópicas da diminuição da abundância e riqueza pesqueira, apontadas por 80% dos pescadores, foram as grandes instalações industriais e consequente poluição (50%), além de uma pesca industrial com arrasto de fundo (27,5%) e à iluminação de cargueiros e outros barcos ancorados na área (10%). No capítulo 2 o CEL de 198 Pescadores Artesanais da Baía de Sepetiba e da Baía de Ilha Grande foi utilizado para avaliação de mudanças temporais na abundância de peixes e média temporal dos níveis tróficos, como possíveis efeitos de ações antrópicas, testando a hipótese de ‘fishing down marine food web’. As espécies mais capturadas atualmente são: M. furnieri (61,5%); M. liza (29%); C. undecimalis (20%). As que sofreram maiores reduções na abundância foram: S. brasiliensis (17%); P.  saltatrix (15%); Scomberomorus cavalla (Cuvier, 1829) (13%). As principais ações antrópicas possivelmente  responsáveis pelas reduções foram: operação de barcos da pesca industrial de sardinha por grandes traineiras e arrastões de camarão (36%); poluição industrial (16%); operação de megaempreendimentos (10%). A média do nível trófico das espécies mais capturadas pela pesca artesanal reduziu ao longo das décadas, demonstrando alteração na estrutura trófica da cadeia alimentar, corroborando a hipótese de ‘fishing down marine food web’. No capítulo 3 o CEL de 69 Pescadores Artesanais da Baía de Guanabara foi utilizado para avaliar mudanças temporais na abundância de peixes e nas médias dos níveis tróficos, apontados como efeitos das ações antrópicas, testando a hipótese de “fishing down marine food web”. As espécies atualmente mais pescadas são: M. furnieri (67%); M. liza (49%). As espécies que apresentaram as maiores reduções em abundância foram: P. saltatrix (19%); Epinephelus itajara (Lichtenstein, 1822) (16%). As principais ações antrópicas possivelmente responsáveis por essas reduções são: poluição (39%); pesca industrial (22%); arrastos industriais de camarão (15%); derramamento de óleo de 2000 (7,5%). Isso ocorre, infelizmente, em grande medida, de forma intencional, como consequência da conivência das autoridades públicas com a lógica capitalista, que prioriza atividades econômicas mais lucrativas em detrimento da preservação da saúde socioambiental da baía, que essas autoridades deveriam proteger. O nível trófico médio das espécies mais pescadas pela pesca artesanal tem diminuído ao longo das décadas, indicando alterações na estrutura trófica da teia alimentar, apoiando a hipótese de “fishing down marine food web”. No capítulo 4 o CEL de 40 Pescadores Artesanais (Caiçaras) da Baía de Sepetiba foi empregado para investigar aspectos biológicos e ecológicos de M. furnieri. Isto incluiu padrões de migração, reprodução, hábitos alimentares e interações como o parasitismo. Verificou-se que as informações dos entrevistados coincidem com a literatura acadêmica em alguns aspectos da biologia e ecologia da espécie. Além disso, os Pescadores Artesanais forneceram descrições de novos padrões, que contribuíram para uma compreensão mais aprofundada da história natural da espécie. Estas incluíam observações de reprodução, ocorrendo quase todo o ano, a influência dos ventos leste e norte na entrada da espécie na baía, interações com bagres marinhos (Ariidae), e registros notáveis do isópode Cymothoidae como um importante parasita de M. furnieri. No capítulo 5 foi analisado o CEL de 198 Pescadores Artesanais Caiçaras e Quilombolas das baías de Sepetiba e Ilha Grande, sobre aspectos da bioecologia e da abundância de M. liza. A maioria dos entrevistados relatou que a espécie se reproduz durante o inverno, confirmando informações da literatura. No entanto, muitos Pescadores Artesanais de ambas as baías também mencionaram a reprodução de M. liza no verão, na Baía de Sepetiba, sugerindo a possibilidade da existência de uma metapopulação residente da espécie nessa baía, ou uma migração de populações de M. liza de Cabo Frio para essa baía no verão. Com relação ao estado de saúde, os entrevistados relataram que M. liza pode estar se tornando hospedeiros de parasitas da família Cymothoidae em ambas as baías estudadas. Também foi observada uma redução na abundância de M. liza em ambas as  baías. Essa redução está associada principalmente ao aumento da poluição industrial por grandes empreendimentos e à crescente pressão pesqueira sobre a espécie pela pesca industrial no Sul do Brasil, o que, em certa medida, está relacionado ao novo elemento comercial de exportação representado pela venda de ovas de M. liza. O CEL dos pescadores artesanais forneceu informações importantes sobre a atual diversidade e abundância de peixes; o declínio da ictiofauna causado por ações antrópicas; mudanças temporais na estrutura trófica marinha; e a bioecologia de duas espécies importantes para a pesca artesanal; confirmando a importância da diversidade cultural para a preservação da biodiversidade, da saúde dos ecossistemas, para a redução dos problemas socioambientais e para a redução de conflitos.


MEMBROS DA BANCA:
Externo à Instituição - José da Silva Mourão - UEPB
Externo à Instituição - NATALIA HANAZAKI - UFSC
Interno - 387200 - FRANCISCO GERSON ARAUJO
Notícia cadastrada em: 19/05/2025 13:59
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