ALIMENTANDO AFETOS E PARTILHANDO EXPERIÊNCIAS DIANTE DO LUTO NEONATAL E
GESTACIONAL
afeto, luto, maternidade.
Esta tese tem como análise as narrativas de mulheres produzidas a partir de uma etnografia nos espaços virtuais nacionais que trabalham com o luto neonatal e gestacional. À luz da antropologia das emoções, viso compreender como estas mulheres, em grupos, alimentam-se de afetos e criam estratégias para lidar com sua dor. Analiso como as gramáticas de dor/sofrimento diante da perda do filho acionam uma gestão do Estado, convertendo em demandas por direitos, por meio dos grupos de apoio à perda neonatal e gestacional. Além disso, viso tensionar o debate sobre a
ética na pesquisa em relação a temas sensíveis. Pretendo pensar também nos conceitos analíticos centrais de gênero, moralidade, violência e temporalidade. A ideia também é refletir sobre os efeitos do movimento feminista na produção do se fazer ciência. Desta forma, proponho o trabalho de pensar como o feminismo mudou os estudos de parentesco. Seguindo o debate de parentesco, baseado no texto da Janet Carsten (2014) sobre a materialidade do parentesco, penso a questão da “temporalidade”, e como essa noção é atravessada nas relações de violência,
moralidades e afetos. Desta forma, analisando as narrativas das membras dos grupos de apoio a perda neonatal e gestacional nacionais, entendo que ao falar sobre a relação da perda do filho, é acionada também a figura do tempo passado/presente/futuro, no sentido usado pelas interlocutoras que passaram pela perda neonatal e gestacional. Por fim, destaco a importância de acionar o nome do/a filho/a no contexto do luto neonatal e gestacional, pois isso cria a deia de uma noção de pessoa relacional; desta forma, ao falar sobre a relação da perda do filho, é efetuado um
imperativo da materialidade (Memmi, 2015) do corpo e do nome pela figura do tempo passado/presente/futuro, no sentido usado pelas interlocutoras dos grupos de apoio neonatal e gestacional, de que “sou mãe e sempre serei mãe”. Essa produção de memória produz também uma condição de parentesco que nos conecta com o tempo do passado a
partir da materialidade dos nomes, de fotos, comidas partilhadas, lembranças, e de quem somos no tempo do presente, e cria as possibilidades de fabricar nossas relações de parentesco no futuro (Carsten, 2014).