Evangélicos no Brasil contemporâneo: uma reflexão sobre religião, raça, identidade e sua reconfiguração no espaço público
evangélicos; religião; racismo; comportamento; território
Esta dissertação analisa o campo evangélico brasileiro contemporâneo a partir da articulação entre raça, identidade e suas reconfigurações no espaço público. Partindo da crítica às leituras homogêneas que reduzem os evangélicos a um bloco político e religioso uniformes, o estudo propõe compreender esse segmento como um universo plural, atravessado por marcadores sociais como raça, gênero, classe e território. O trabalho dialoga com a tradição clássica da sociologia da religião e com debates contemporâneos sobre secularização, dessecularização e religião pública, mobilizando autores como Marx, Durkheim, Weber, Hervieu-Léger, Berger, Taylor e Paula Montero para fundamentar uma leitura relacional do religioso na modernidade. E parte do pressuposto de que as disposições políticas não decorrem de orientações institucionais automáticas nem da obediência direta às lideranças religiosas, mas se constroem em processos cotidianos de socialização moral, afetiva e comunitária, situados em contextos marcados por desigualdades sociais e raciais, além de propor um deslocamento analítico ao tornar explícito o racismo estrutural como dimensão interpretativa central, ainda que nem sempre nomeada como tal pelos próprios sujeitos.
Metodologicamente, a dissertação adota uma abordagem qualitativa, baseada na análise de grupos focais e entrevistas realizadas pelo Observatório Político e Eleitoral (OPEL) e à Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, entre 2023 e 2024, com atenção às trajetórias de evangélicos negros residentes em territórios periféricos. O estudo das narrativas evidencia as tensões entre o reconhecimento do racismo como realidade estrutural da sociedade brasileira e sua negação ou silenciamento no interior das igrejas. Ao explorar temas como presença negra nas igrejas, lugar das lideranças, posições sobre políticas de ação afirmativa, interpretações bíblicas e visões sobre ancestralidade, a pesquisa demonstra que o campo evangélico é atravessado por disputas simbólicas e morais que desafiam explicações simplificadoras. Conclui-se que os evangélicos no Brasil contemporâneo não podem ser compreendidos como categoria homogênea, mas como sujeitos inseridos em processos dinâmicos de construção identitária e de reconfiguração pública do religioso, nos quais a raça constitui dimensão fundamental.