Comunidade Quilombola da Ilha da Marambaia: protagonismos, resistências e
agenciamentos da vida cotidiana
quilombo, cotidiano, práticas estatais
Este trabalho é fruto de um estudo etnográfico em andamento, na Ilha da Marambaia – RJ, local
que abriga uma Comunidade Remanescente de Quilombolas, reconhecida e titulada. O acesso a
esta ilha é feito a partir de um rígido controle por parte da Marinha do Brasil, instituição que por
décadas, disputou a posse da ilha com os moradores. Este processo de disputa culminou na
assinatura do Termo de Ajustamento de Condutas – TAC, em 2014. Foram mobilizados nesta
análise, o cotidiano dos moradores da comunidade no quesito mobilidade, no geral, os
quilombolas da Marambaia realizam longos deslocamentos internos, tanto caminhando por terra,
quanto circulando a ilha pelo mar. Os trâmites relacionados à mobilidade externa, também foram
acionados por esta pesquisa, nos quais foram pontuados primeiramente o sistema de identificação
do morador realizado a partir de um número, fornecido pela instituição, em segundo lugar o
acesso ao barco da Marinha a partir de um critério de “antiguidade”, no qual o morador, anterior
à marinha na ilha, é o menos antigo e portanto, o último. E em terceiro, o potencial do barco em
regular a vida cotidiana, pois na Marambaia a vida é necessariamente organizada em função dos
dois únicos horários diários deste transporte. Adentrando à ilha, as memórias da Escola de Pesca
Darcy Vargas (1939 - 1970), que apesar de homenagear uma mulher, era destinada apenas aos
homens, parecem ter conexão com a saída voluntária de quilombolas, durante seu período de
funcionamento. Em relação a esses movimentos de saída, a desativação da escola e chegada da
Marinha à ilha em 1971, marca o início das saídas compulsórias, mobilizadas pela Marinha.
Esses movimentos, tanto voluntários quanto compulsórios, resultaram na perda de direitos aos que saíram e na impossibilidade de comprovação étnica quilombola, que é vinculada à
permanência no território. A circulação de documentos entre a comunidade quilombola e a
Marinha, também foi considerada neste trabalho como um escopo de análise, assim como a
circulação cotidiana dos moradores, na Associação de Remanescentes de Quilombo da Ilha da
Marambaia - ARQIMAR, local onde esta pesquisa se concentra, onde são pensadas soluções para
as inúmeras demandas dos quilombolas da ilha. Lugar de aquilombamento, escritas conjuntas,
leituras conjuntas de ofícios, legislações e editais, o que até o momento parece ser a principal
ferramenta de luta da comunidade e também porta de entrada desta pesquisa na ilha através do
voluntariado.