Gerenciamento algorítmico (senti)mental: um estudo de caso etnográfico sobre experiências dos usuários de aplicativo de autocuidado emocional
Antropologia Digital; mHealth; Aplicativo de bem-estar emocional; Subjetivação algorítmica; Governamentalidade neoliberal
O aumento expressivo dos casos de ansiedade, depressão e sofrimento emocional nos últimos anos, intensificado pela pandemia de COVID-19, tornou urgentes novas formas de compreender como indivíduos buscam gerir suas emoções. Nesse contexto, os aplicativos de bem-estar emocional (mHealth) surgem como ferramentas centrais na vida cotidiana, influenciando práticas de autocuidado e como os sujeitos lidam com crises. Diante do alcance desses aplicativos e de seu impacto crescente, torna-se fundamental investigá-los a partir de uma perspectiva socioantropológica que considere não apenas suas funcionalidades técnicas, mas principalmente seus efeitos subjetivos e simbólicos. Revisões recentes mostram que a maior parte das pesquisas sobre mHealth concentra-se nas áreas da psicologia, psiquiatria, ciência da computação e design, com foco em eficácia clínica e análises mercadológicas. A carência de pesquisas qualitativas baseadas nas narrativas dos usuários, me fez optar por investigar suas experiências vividas para compreender suas ressignificações de sofrimento e gerenciamento de emoções por meio do aplicativo brasileiro que possui o maior número de downloads – de acordo com a Play Store. Vislumbro compreender como os usuários percebem e utilizam o app; identificar quais transformações objetivas e subjetivas eles atribuem ao aplicativo e analisar como práticas de autocuidado são mediadas pelo dispositivo. Suponho que o app funcione simultaneamente como uma ferramenta de apoio emocional e como uma tecnologia de subjetivação algorítmica que molda nos usuários os modos de sentir, interpretar e gerenciar suas emoções – provocando reconfiguração das memórias, produzindo moralidades sobre autocuidado e reforçando lógicas neoliberais de responsabilização individual.