ARTICULAÇÃO POLÍTICA E MEDIAÇÃO LOCAL: A TRAJETÓRIA DE WASHINGTON REIS EM DUQUE DE CAXIAS E A FORMAÇÃO DE LIDERANÇAS NA BAIXADA FLUMINENSE L
Hegemonia; Mediação; Significante Vazio; Washington Reis; Duque de Caxias.
Esta tese tem como objetivo central analisar a consolidação e a resiliência da hegemonia política de Washington Reis e de seu grupo familiar no município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. A pesquisa busca compreender como essa liderança modernizou as estruturas de poder tradicionais, superando antigos líderes locais, resistindo a crises judiciais e expandindo o seu domínio territorial ao longo das últimas duas décadas. Para compreender esse fenômeno, mobilizamos conceitos interdisciplinares: a formação do território fraturado pelo “cubismo social” (Enders, 2015) e alicerçado na violência estrutural; o papel do “políticomediador” (Kuschnir, 2005) nas periferias metropolitanas; e a reinterpretação analítica do clientelismo contemporâneo (Arnaud e Marques, 2021) como mecanismo de individualização de direitos. Na dimensão discursiva, a tese apropria-se do aparato conceitual de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe através de noções como “articulação hegemônica”, “cadeias de equivalência” e “significante vazio”, separando seu projeto normativo de democracia radical para utilizá-los analiticamente na decodificação de um projeto hegemônico conservador. Do ponto de vista metodológico, o trabalho adota uma abordagem mista. A dimensão quantitativa consiste no mapeamento da evolução territorial dos votos nas eleições majoritárias de 2004, 2016 e 2020 (via dados do TSE/Politique), evidenciando a geografia do poder por meio da distribuição de benefícios. Já a dimensão qualitativa lança mão da análise das performances e estratégias de comunicação política nas plataformas digitais nos perfis oficiais de Reis no Instagram e Facebook, dissecando os rituais de campanha permanente e a plataformização de seu discurso. Os resultados demonstram que a Família Reis operou uma profissionalização da elite local, estruturando uma máquina que une a materialidade brutal do uso do Estado (a estética do “prefeito trator”) a um cimento ideológico conservador (a figura do “gestor cristão”), amplamente amparado pelo repertório religioso e blindado institucionalmente pelo MDB. Conclui-se que a resiliência dessa hegemonia reside na radicalização da mediação. Ao articular a entrega de infraestrutura à provisão de estabilidade moral e religiosa, a liderança esvaziou a política ideológica tradicional. O nome “Reis” converteu-se, assim, em um significante vazio hegemônico, pois absorveu tantas demandas sociais em um território historicamente negligenciado que transcendeu a condição de mero administrador para assumir o lugar do próprio Estado no imaginário coletivo caxiense.