Aflição, adoecimento e cuidado: a gestão do desastre no cotidiano de mulheres atingidas de Barra Longa (MG)
gestão do desastre; cotidiano; mulheres atingidas; Barra Longa
Oito anos após o rompimento da barragem de Fundão (Mariana, Minas Gerais), os moradores e moradoras dos territórios afetados ainda lidam com as marcas de “uma lama que não sai” (Teixeira, 2018). O trabalho que aqui se apresenta objetiva especialmente pensar a gestão do desastre no cotidiano de mulheres atingidas do município de Barra Longa (MG), a partir de experiências de adoecimento e cuidado. Para isso, utilizarei de entrevistas e análise dos relatórios produzidos pela Assessoria Técnica Independente (ATI) presente no território. A doença aqui não é conjugada como um quase-evento (Povinelli, 2011) inserido na rotina, mas como tentáculos do próprio evento preso e absorvido no cotidiano (Das, 2020). Metais pesados como níquel e arsênio fazem parte da composição dos rejeitos que estão esparramados e diluídos por toda a cidade de Barra Longa: nos quintais de cultivo, nos rios, no ar, na água para o consumo doméstico e até mesmo na pavimentação das vias públicas da cidade, já que em Barra longa a lama de rejeitos foi reutilizada. A “reconstituição” da cidade, gerida pelas empresas violadoras, a Vale S.A e a BHP Billiton, foi literalmente forjada por uma complexa infraestrutura combinada de rejeitos do desastre, insumos e materiais de construção. Relatos de coceira, manchas no corpo e alergias respiratórias, serão analisados não apenas como sintomas de intoxicação, mas como as formas com as quais o corpo pode falar sobre a convivência ordinária e contínua com o desastre. Meu objetivo nesta pesquisa, por fim, é trazer algumas reflexões sobre adoecimento, memórias do desastre no corpo, sem que se ausente as reflexões sobre o manejo do cuidado gerido por mulheres na contramão das dúvidas aniquiladoras de mundos.