Interpretações, práticas e disputas a respeito do parto e nascimento: uma análise
sobre a cultura da humanização do parto em mídias sociais
Parto humanizado, Violência obstétrica, Mídias sociais, Doulas
O presente trabalho tem por objetivo investigar como ativistas, profissionais e adeptos do parto
humanizado propagam ideais desse movimento em mídias sociais, promovendo e forjando uma
nova cultura de parto. Tomo por objeto mídias sociais, sites e perfis na rede social Instagram dos
seguintes grupos conectados ao movimento da humanização do parto: Adoulasrj – Associação de
doulas do Rio de Janeiro; Coletiva Mãe na Roda; Makota terapia ancestral; Grupo Ilê materno;
Ishtar (núcleos periféricos); e a página “O renascimento”. A metodologia utilizada teve como
referência o uso de pesquisa bibliográfica; pesquisa documental; e de pesquisa netnográfica,
analisando-se mídias sociais de grupos de adeptos do movimento pelo parto humanizado, e
apresentando em complemento matérias jornalísticas online com a cobertura do cenário
obstétrico brasileiro. Uso como principal referencial teórico estudos da Antropologia do Corpo e
da Saúde, além de pesquisas na área da saúde coletiva sobre assistência e violência obstétrica.
Apresento uma análise e percurso histórico-cultural de formação da assistência obstétrica
brasileira, destacando o contexto de hospitalização e medicalização do parto; os movimentos de
resistência à essa medicalização; e o atual cenário da assistência obstétrica brasileira, focando-se
no movimento de humanização do parto e no problema da violência obstétrica. Em seguida, é
feita uma análise dos achados da pesquisa netnográfica em mídias sociais de ativistas, adeptos e
profissionais do parto humanizado. Destaco características do ofício das doulas e de sua atuação
como mediadoras da pedagogia de parto humanizado; analiso os discursos coletados na página
“O Renascimento” na rede social Instagram; e descrevo a atuação de coletivos de doulas que se
organizam a partir de uma perspectiva de doulagem periférica e afrocentrada. Como resultados,
verificou-se que o campo obstétrico é caracterizado por um cenário de tensão e disputas entre as
categorias profissionais que o formam e os ideais, práticas e discursos que as mesmas mobilizam.
Ademais, algumas mulheres com acesso limitado a saberes instituídos sobre seu corpo têm se
mobilizado de forma a reverter essa situação de dominação, buscando recuperar o protagonismo
na escolha pelo tipo de assistência obstétrica que desejam. Esses conflitos, assim também, como
a fusão ou separação de discursos por um parto mais “natural” e de combate à violência
obstétrica, se estabelecem orientados por valores socioculturais e hierarquias de poder, como
relações raciais e de classe social. Além disso, observou-se como no campo virtual procura-se
construir um espaço de sociabilidade entre um público, em sua maioria, formado por mulheres
que serão orientadas a partir de concepções que fundamentam o ideário da humanização do parto.
As doulas figuram nesse contexto como dispositivo de pedagogia de parto humanizado,
mediando o acesso a saberes e práticas de saúde, e adaptando-os ao público que desejam
alcançar. Nesse espaço, os saberes e práticas que formam a pedagogia de parto humanizado são
estabelecidos numa espécie de negociação entre tradição e ciência, e concepções de natureza e
cultura.