Substâncias húmicas em solos da Amazônia Central: efeito do relevo e da vegetação na estabilização do carbono
espectrosocpia infravermelho, ácido húmico, fúlvico, humina, persistência do carbono
Uma década após o Acordo de Paris (COP21, 2015), os esforços globais para limitar o aumento da temperatura média do planeta a 1,5 °C até 2030 têm se mostrado insuficientes. Projeções científicas mais recentes indicam que esse limite será, muito provavelmente, ultrapassado ainda nesta década, podendo ser excedido até três anos antes do prazo inicialmente estabelecido. Nesse cenário, o bioma amazônico assume papel central nas discussões sobre mudanças climáticas e estratégias de mitigação dos gases de efeito estufa (GEE). A Amazônia atua como um dos maiores sumidouros de carbono do planeta, com sequestro anual estimado entre 421 e 470 Tg de carbono (C), além de desempenhar funções essenciais na regulação climática em escalas regional e global. Compreender os mecanismos que controlam a dinâmica e a estabilização da matéria orgânica nos solos amazônicos é, portanto, fundamental tanto para a conservação dos serviços ecossistêmicos quanto para o desenvolvimento de estratégias eficazes de mitigação das emissões de GEE. Nesse contexto, o presente trabalho teve como objetivo quantificar os estoques de carbono (ECOS) nas frações húmicas do solo (ácido fúlvico, ácido húmico e humina) até 30 e 100 cm de profundidade, bem como avaliar a influência de fatores edáficos como, relevo, drenagem e vegetação na formação e estabilização da matéria orgânica do solo (MOS), em solos da Província de Urucu, na Amazônia Central. Em 2018, trincheiras foram abertas e amostras de solo (deformadas e indeformadas) foram coletadas de 10 perfis representativos. As amostras, previamente identificadas, foram acondicionadas em sacos plásticos e enviadas ao Laboratório de Dinâmica da Matéria Orgânica do Solo (LMOS), onde foram preparadas como terra fina seca ao ar (TFSA). Para avaliação dos ECOS e dos mecanismos de estabilização do carbono, procedeu-se ao fracionamento químico da matéria orgânica, visando a separação das frações ácido fúlvico (AF), ácido húmico (AH) e humina (H), conforme metodologia proposta por Benites et al. (2003). A quantificação do carbono orgânico nas frações foi realizada com base na oxidação por dicromato de potássio e titulação com sulfato ferroso amoniacal, segundo Yeomans & Bremner (1988). Com os teores de carbono obtidos, calcularam-se os ECOS nas profundidades de 0–30 cm e 0–100 cm. Os ECOS a 30 cm variaram entre 16,4 e 67,5 Mg ha⁻¹, enquanto os ECOS a 100 cm oscilaram entre 51,5 e 214,2 Mg ha⁻¹. Na fração fúlvica, os solos em terra firme, bem drenados e sob mata fechada apresentaram estoques entre 23,1 e 51,8 Mg.ha⁻¹; na fração húmica, entre 8,4 e 33,1 Mg ha⁻¹; e na humina, entre 24,1 e 68,0 Mg ha⁻¹. Nos perfis localizados em planícies fluviais, com drenagem impedida e vegetação de mata aberta, os ECOS variaram entre 19,2 e 63,1 Mg ha⁻¹ (AF), 22,3 e 79,0 Mg ha⁻¹ (AH), e entre 28,1 e 72,1 Mg ha⁻¹ (H). Já nos solos situados em terraços, com drenagem moderada a imperfeita e sob mata aberta, os estoques variaram entre 16,0 e 46,7 Mg ha⁻¹ (AF), 7,7 e 54,3 Mg ha⁻¹ (AH), e entre 22,5 e 98,8 Mg ha⁻¹ (H). Apenas dois perfis apresentaram mais de 50% do estoque total de carbono nos primeiros 30 cm, com destaque para um Gleissolo, que concentrou 64,7% do carbono orgânico nessa camada superficial. Os resultados indicam forte influência das condições edáficas e do ambiente sobre a distribuição vertical e a estabilidade do carbono nas diferentes frações húmicas do solo.