GEOGRAFIA DO COTIDIANO BASEADA EM CARNE VIVA: UMA ANÁLISE DA OBRA DE LINN DA QUEBRADA
Corpo-espaço; Cotidiano; Transfeminismo; Linn da Quebrada
A valorização das epistemologias das existências, por meio de uma arte feita por uma travesti preta, e intrinsicamente vinculada ao cotidiano das margens, é o solo em que está plantado este trabalho. Linn da Quebrada é a invenção de Lina Pereira do Santos para transformação e libertação dos estigmas que assolam um corpo negro e cisheterodiscordante no Brasil. A trajetória de uma multiartista munida de uma intelectualidade orgânica e inventividade latente faz da análise percorrida nesta pesquisa uma possibilidade de reconhecimento de como a margem - a quebrada ou a que brada -, é um espaço de abertura radical (hooks, 2019). Linn da Quebrada, com uma série de performances, como o documentário (bixa travesty – 2018) os dois álbuns lançados, Pajubá e Trava-Línguas, nos anos de 2017 e 2021 respectivamente, além de dezenas de entrevistas, participações em filmes e séries, não parou de cavar ainda mais a fissura da cicatriz colonial deixada no território brasileiro. A partir da interpretação desta tão recente e profunda biografia, nota-se que a divisão estabelecida entre vida e obra não é definitiva para aquelas que experimentam a precariedade da existência. Inventando aquilo que desejava sentir e viver, Linn se pôs em movimento, usou do corpo para a transformação da realidade que estava inserida e se fez nas tramas do cotidiano em uma existência plural e abrangente, onde abrangeu outros corpos pela música. Esse fenômeno não foge do escopo de análise geográfica, com rica potencialidade de investigação a partir das geografias corporificadas, geo-grafias encorpadas pela ação, que grafam no próprio corpo e no tecido social os saberes acumulados das dinâmicas do tempo e do espaço. As marcações dessa existência profunda que foram analisadas em diálogo com sua obra dizem respeito à dinâmica desse corpo na cidade; também do preterimento afetivo e vulnerabilidade sexual, que está à mercê; da relação de trabalho, e luta para a prática amorosa cotidiana. Linn da Quebrada usa da língua como feitiço, faz do seu próprio corpo verbo, para assim se tornar ação e poder imaginar futuros possíveis em que as existências transvestigeneres alcancem espaços além daqueles que possamos imaginar no tempo presente.