BASEADO EM CARNE VIVA: GEO-GRAFIAS CORPORIFICADAS DE LINN DA QUEBRADA
Corpo-espaço; Cotidiano; Transfeminismo; Linn da Quebrada
A valorização das epistemologias das existências por uma perspectiva artística intrinsicamente vinculada ao cotidiano, sob a carne e perspectiva de uma travesti negra é o solo que está plantado este trabalho. Linn da Quebrada é a invenção de Lina Pereira do Santos para transformação e libertação dos estigmas que assolam um corpo negro e cisheterodiscordante no Brasil. A trajetória relacional e artística de uma multiartista munida de uma intelectualidade orgânica e inventividade latente é a análise percorrida. Linn da Quebrada, com uma série de performances, um documentário (bixa travesty – 2018) dois álbuns lançados, Pajubá e Trava-Linguas, nos anos de 2017 e 2021 respectivamente, além de dezenas de entrevistas, participações em filmes e séries, não parou de cavar ainda mais a fissura da cicatriz colonial deixada no território brasileiro. A partir da costura de participações em produções audiovisuais, diálogos e entrevistas notase que a divisão estabelecida entre vida e obra não é definitiva para aquelas que experimentam a precariedade da existência. Inventando aquilo que desejava sentir e viver, Linn se pôs em movimento, usou do corpo para a transformação da realidade que estava inserida e se fez nas tramas do cotidiano em uma existência plural e abrangente, em que mobilizou outros corpos pela música. Esse fenômeno não foge do escopo de análise geográfica, com rica potencialidade de investigação a partir das geografias corporificadas, geografias estas encorpadas pela ação, que grafam no próprio corpo e no tecido social os saberes acumulados das dinâmicas do tempo e do espaço. As marcações dessa existência profunda, analisadas em diálogo com sua obra dizem respeito à dinâmica desse corpo na cidade; do preterimento afetivo e da vulnerabilidade sexual que está à mercê da relação de trabalho, do abolicionismo e da luta para a prática amorosa cotidiana. Linn da Quebrada usa da língua como feitiço, faz do seu próprio corpo verbo, para assim se tornar ação e poder imaginar futuros possíveis em que as existências transvestigeneres alcancem espaços além daqueles que possamos imaginar no tempo presente.