ELAS POR ELAS: MULHERES ENCARCERADAS E A ARTE COMO POSSIBILIDADE DE AGÊNCIA E AUTODEFINIÇÃO
encarceramento feminino; imagens de controle; arte e agência
O aumento do encarceramento feminino tem sido uma preocupação crescente no Brasil nos últimos anos. No contexto prisional, as formas e espaços de controle tornam-se evidentes, pois as mulheres enfrentam não apenas a punição pelo envolvimento em atividades ilícitas, mas também as consequências de um sistema que reproduz e perpetua desigualdades estruturais de classe, raça e gênero. As especificidades vividas pelas mulheres no cárcere se revelam nitidamente quando se consideram os desafios impostos por questões relativas ao gênero e à sexualidade, bem como as de natureza biológica (como menstruação, gestação, parto e amamentação). Diante dos desafios impostos pela interdição espacial e de se levar uma vida digna no cárcere, a análise buscou identificar ações que fossem reveladoras de formas de superação das imagens de controle, seja por meio de redes de apoio entre detentas, ou de iniciativas de educação e práticas artísticas que possibilitam a essas mulheres manter uma agência sobre seus corpos e que lhes permita resistir à desumanização do sistema prisional. Desafiando a narrativa unidimensional do encarceramento, o objetivo da pesquisa é identificar ações e táticas de resistências e formas de re-existência que tem por base a organização entre mulheres em tais espaços de controle, nas quais a arte, a literatura e a fotografia aparecem como expressões sensíveis das subjetividades dessas mulheres. Por meio das obras artísticas de Nana Moraes e Barbara Copque com mulheres encarceradas, a pesquisa buscou evidenciar agências possíveis de mulheres apenadas com relação às suas vidas fora da prisão. A pesquisa de caráter exploratório e qualitativo foi realizada por meio de uma ampla revisão bibliográfica e documental e pela observação participante da autora em uma organização de acolhimento a ex-detentas, o Instituto Elas Existem. Mas foi por meio da identificação das ações desenvolvidas com mulheres apenadas em seu contato com a fotografia e a escrita como artesania, que essas mulheres encarceradas contribuíram de modo decisivo para a interpretação do sentido paradoxal do espaço. O cárcere aparece como espacialidade da privação da liberdade, mas a arte nos permite revelar que ainda que se necessite de mediações e interlocuções externas ao cárcere, é possível que essas mulheres revelem formas próprias de grafar suas existências para além desse espaço fechado. Por meio de cartas, bordados e fotografias “a vida que ficou fora do cárcere” aparece revelando aberturas e agências possíveis, ainda que limitadas. Dessa forma, por meio das artes realizadas nessa espacialidade prisional pesquisada, nossa geografia corporificada alcança as subjetividades dessas mulheres e nos revela o sentido de um fazer científico comprometido com as existências vulnerabilizadas em suas corporeidades.