Estudo da transmissão inter- e transgeracional de alterações metabólicas, comportamentais e cardíacas na prole de camundongos obesos por duas gerações consecutivas
ecocardiograma, epigenética, obesidade materna e paterna
Pesquisas têm demonstrado os efeitos da obesidade materna (OM) na transmissão de distúrbios metabólicos, comportamentais e cardiovasculares na prole, possivelmente relacionados a distúrbios epigenéticos em células germinativas de um ou ambos progenitores. Em Drosophilas, a obesidade paterna (OP) leva à obesidade e alterações metabólicas na prole através de alterações epigenéticas no espermatozóide, no entanto, pouco desse fenômeno é conhecido em mamíferos. O trabalho objetivou compreender se a OM e OP modulam o metabolismo, comportamento, e função cardíaca em mamíferos, por duas gerações consecutivas. Camundongos C57BL/6J fêmeas e machos alimentaram-se com dieta controle (NC, 6% de lipídeos) ou hiperlipídicas (HF45 e HF60, 45% e 60% de lipídeos, respectivamente) ad libitum da 4ª à 10ª semana de idade, onde realizamos exames de composição corporal (RMN), metabolismo glicídico (TTG) e comportamento (CA). Os grupos NC, HF45 e HF60, considerados geração F0, foram acasalados com animais NC para obtenção da geração F1. Para aumentar a influência da programação, a geração F2 foi obtida pelo cruzamento de camundongos F1 dentro de seu próprio grupo. Excetuando-se F0, todos os animais foram mantidos em NC durante todo o período. Os experimentos realizados foram: RMN, TTG (6, 10, 15 e 25ª semana); CA (15ª semana) e ecocardiograma (ECO, 25ª semana). Observamos que machos e fêmeas F0-HF45 e F0-HF60 apresentaram maior peso corporal e adiposidade. Fêmeas F0-HF60 e machos F0-HF45 e F0-HF60 apresentaram comprometimento no metabolismo glicídico. Nenhuma diferença significativa foi observada nas taxas de gravidez e número de filhotes ao nascimento; porém fêmeas F0-HF60 apresentaram menor taxa de sobrevivência dos filhotes após o desmame. Quanto à OM, machos F1-MHF45 exibiram acréscimo na massa corporal e adiposidade, machos F1-MHF45 e F1-MHF60 apresentaram prejuízo no metabolismo glicídico. Machos F2-MHF45 apresentaram menor peso corporal. A função cardíaca encontrava-se normal em machos F1- MHF45 e F1-MHF60, porém uma redução substancial na fração de ejeção e aumento no volume sistólico final do ventrículo esquerdo (VE) foram observados nos machos F2-MHF45. A única alteração relevante detectada nas fêmeas foi o maior tempo de permanência no centro do campo aberto pela prole F1-MHF45. No modelo de OP, observou-se maior massa corporal e adiposidade em ambos sexos na prole F1-PHF45 e nos machos F1-PHF60. Em contraste, a F2-PHF45 apresentou menor peso corporal, além de menor adiposidade nas fêmeas F2- PHF45, sem alteração no GTT em F1 e F2. O teste comportamental também demonstrou comportamento inverso no rearing em machos da PHF45 entre as gerações, e aumento do tempo de permanência no centro somente nas fêmeas F1-PHF45. A função cardíaca apresentava-se normal na F1, mas uma redução substancial na fração de ejeção e aumento do volume sistólico final do VE foi detectado nas proles F2-PHF45, independente do sexo. Resumidamente, os filhotes machos foram mais afetados pela OM, enquanto alterações na OP foram observadas em ambos os sexos. Especificamente, enquanto o prejuízo na função cardíaca pela OM ocorre em machos, na OP tal fenótipo ocorre de forma independente ao sexo ou à obesidade da prole, mostrando a relevância da busca de marcadores epigenéticos importante a manutenção de fenótipos na prole.