A CADEIA PRODUTIVA DO FERRO E DO AÇO E A AGENDA 2030: UMA ANÁLISE COMPUTACIONAL SOBRE O CUMPRIMENTO DAS ODS POR EMPRESAS DO RAMO
Agenda 2030, meio ambiente, 17 ODS
Historicamente, a cadeia produtiva do ferro e do aço sempre apresentou riscos ao meio
ambiente devido à natureza de sua própria operação, seja através das altas emissões de gases de
efeito estufa, degradação do solo, ar e água, ou da intoxicação da biodiversidade em seu
entorno. =Não obstante, as atividades destas cadeias produtivas podem também desencadear
diversos problemas sociais, uma vez que geralmente suas bases industriais estão localizadas em
regiões periféricas, distante da atenção pública e carentes de fiscalização. Como consequência,
os desafios referentes ao combate à pobreza extrema, redução da fome, poluição e criminalidade
são ainda mais acentuados, tornando precária as condições da população que residem nos
entornos de indústrias do ramo. Os desafios acarretados pela cadeia produtiva do ferro e do aço
estão amplamente relacionados com a Agenda 2030, que busca, através da cooperação
internacional, a diminuição da desigualdade social, proteção dos direitos humanos, preservação
da biodiversidade, conservação do meio ambiente e o fortalecimento da parceria global para
fomentar o desenvolvimento sustentável.
A Agenda 2030, assinada em setembro de 2015 durante a Cúpula das Nações Unidas
sobre o Desenvolvimento Sustentável (Nova York, Estados Unidos) por 193 Estado-membros,
é categorizada em 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que juntos, somam
169 metas: (1) Erradicação da Pobreza, (2) Fome Zero, (3) Boa Saúde e Bem-Estar, (4)
Educação de Qualidade, (5) Igualdade de Gênero, (6) Água Limpa e Saneamento, (7) Energia
Limpa e Acessível, (8) Trabalho Decente e Crescimento Econômico, (9) Indústria, Inovação e
Infraestrutura, (10) Redução das Desigualdades, (11) Cidades e Comunidades Sustentáveis,
(12) Consumo e Produção Sustentáveis, (13) Ação Contra a Mudança Global do Clima, (14)
Vida na Água, (15) Vida Terrestre, (16) Paz, Justiça e Instituições Eficazes e (17) Parcerias e
Meios de Implementação.
O intuito deste trabalho é entender se empresas atuantes na cadeia produtiva do ferro e
aço estão cumprindo os objetivos dispostos na Agenda 2030, ou se temas inerentes ao
desenvolvimento sustentável estão sendo empregados principalmente enquanto chamariz
publicitário. Empresas do ramo seguem os 17 ODS ou possuem uma agenda própria? Todos os
17 ODS são tratados com sua devida importância, ou existe uma tendência maior em
priorizar/negligenciar um ODS em específico? Existe alguma congruência nas ações praticadas
por empresas desse ramo industrial? Para responder estas questões, foi feito um recorte de três
empresas da mesma cadeia produtiva: Vale, Gerdau e MRS.
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A escolha do recorte ocorreu devido às semelhanças entre as empresas. Ambas atuam
na mesma cadeia produtiva, realizando atividades industriais semelhantes e/ou codependentes,
e possuem operação no mesmo espaço geográfico: o extremo oeste da região metropolitana do
Rio de Janeiro, a Baixada Fluminense. A Baixada, que fica geograficamente próxima ao
município do Rio de Janeiro, é frequentemente esquecida pelo poder público.
Para realizar o trabalho, foi realizada uma leitura automatizada do Relatório Anual e do
Relatório de Sustentabilidade referente ao ano de 2021 das três empresas escolhidas, Vale, MRS
e Gerdau, totalizando seis documentos. O ano de referência escolhido foi 2021 por ter sido o
relatório mais recente na época que a pesquisa havia sido iniciada. Metodologicamente, o
primeiro passo foi entender quais eram os principais termos da Agenda 2030 e, posteriormente,
utilizá-los como guia nos relatórios das empresas através de uma abordagem baseada em
inteligência artificial. O objetivo era entender se os resultados obtidos através de um
experimento criado com base na leitura por tópicos estavam em congruência com os termos
presentes na Agenda 2030.
A importância desta abordagem é principalmente devido a carência de fiscalização nas
empresas perante os compromissos estabelecidos no pacto global das Nações Unidas, e devido
ao sensacionalismo muitas vezes empregados para supervalorizar ações de sustentabilidade,
cujo impacto é pouco percebido pela população que vive ao entorno destas atividades
industriais. Embora o experimento não seja capaz de afirmar se as ações realizadas pela Vale,
MRS e Gerdau estavam alinhadas com os 17 ODS e suas respectivas 169 metas, ele consegue
viabilizar quais foram os termos mais empregados, sendo possível comparar estes resultados
com a Agenda 2030, e entre as próprias empresas. Isso nos ajuda, inclusive, a entender se existe
algum ODS com maior ou menor ênfase nos resultados obtidos após a leitura automatizada,
sem o enviesamento humano.
Através das Humanidades Digitais, foi possível alinhar um vasto repertório
bibliográfico e a natureza crítica das Ciências Humanas com diferentes técnicas de mineração,
coleta e análise de dados, possibilitando intervenções tecnológicas, naturais das Ciências da
Computação. Embora ainda haja espaço para novos ajustes e melhorias, a
multidisciplinariedade fomentada pelas Humanidades Digitais possibilitou que documentos
fossem analisados de forma imparcial, sendo um pontapé para novas pesquisas que utilizam
grandes arcabouços de dados e/ou que demandem neutralidade do pesquisador.