FRAGMENTOS DE SI NA FICÇÃO: SUBJETIVIDADE E DISSIDÊNCIA EM CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA
Lúcio Cardoso; subjetividade; crítica biográfica; performatividade; dissidência
Esta pesquisa investiga o romance Crônica da casa assassinada (1959), de Lúcio Cardoso, tomando como eixo de análise o personagem Timóteo, figura marcada pelo confinamento e pela exclusão no interior da família Meneses. O objetivo é examinar como a escrita literária do autor, em diálogo com seus registros íntimos nos diários, permite compreender a elaboração ficcional de tensões relacionadas à subjetividade, à dissidência e à marginalidade, situando o romance no contexto do modernismo brasileiro das décadas de 1930 a 1950. Parte-se da hipótese de que Timóteo não funciona como espelho biográfico do autor, mas como instância estética em que determinados impasses — religiosos, identitários e morais — encontram forma simbólica. O romance é compreendido como espaço de transmutação literária dessas tensões, operando como encenação da dissidência no interior de uma estrutura familiar patriarcal e profundamente marcada pela moral cristã. A fundamentação teórica articula a crítica biográfica contemporânea, especialmente conforme formulada por Eneida Maria de Souza, às reflexões de Michel Foucault acerca da função-autor e da escrita de si. Dialoga-se ainda com Philippe Lejeune e a noção de pacto autobiográfico, bem como com Leonor Arfuch e o conceito de espaço biográfico, compreendendo o diário não como registro transparente da experiência, mas como prática de constituição do sujeito. As contribuições de Sylvia Molloy sobre autofiguração permitem pensar a escrita íntima como gesto performativo de fabricação do eu. Em articulação com Judith Butler e Paul B. Preciado, a pesquisa mobiliza a noção de performatividade para analisar como a identidade se constrói na repetição de normas e como a dissidência emerge como gesto de tensionamento dessas estruturas. A metodologia consiste na leitura comparativa entre o romance e os diários de Lúcio Cardoso, buscando identificar não correspondências factuais, mas atravessamentos discursivos e processos de reelaboração estética. Os registros diarísticos evidenciam conflitos relacionados à religiosidade, à sexualidade e à sensação de inadequação social, os quais, quando relacionados à ficção, sugerem que a literatura do autor funciona como espaço de elaboração simbólica dessas experiências. Assim, esta pesquisa sustenta que Crônica da casa assassinada ultrapassa a representação da decadência de uma família mineira para se afirmar como encenação moderna da crise da identidade e da subjetividade dissidente. Lido em chave contemporânea, o romance revela sua atualidade ao problematizar questões de gênero, sexualidade e construção do sujeito, contribuindo para o debate sobre literatura e dissidência no campo da crítica brasileira.