Banca de QUALIFICAÇÃO: LUIZA RIBEIRO DE SOUSA GOMES PEREIRA

Uma banca de QUALIFICAÇÃO de MESTRADO foi cadastrada pelo programa.
DISCENTE : LUIZA RIBEIRO DE SOUSA GOMES PEREIRA
DATA : 21/08/2026
HORA: 17:00
LOCAL: CPDA
TÍTULO:

A contradição entre internacional e nacional na perspectiva de Bukharin e Von

Braunmühl


PALAVRAS-CHAVES:

Imperialismo, Capitalismo, internacional, nacional


PÁGINAS: 45
RESUMO:

Desde 1980, a teoria marxista das relações internacionais se desenvolveu e se
consolidou na academia como um campo de investigação essencial para a análise do
capitalismo contemporâneo, contribuindo para a interpretação crítica da dominação global e
da luta de classes em escala internacional na atualidade/século XXI. À luz desse
desenvolvimento histórico, o presente trabalho busca aporte na tradição marxista das
Relações internacionais para abordar a contradição principal desse campo: a relação entre o
internacional e o nacional.
Nesse sentido, é importante compreender que é no capitalismo, pelo seu próprio
caráter expansivo, que as relações internacionais ganham especificidade, distinguindo-as de
relações externas de outra sociabilidade que não a movida pelo capital (Osório, 2019b). Por
conta disso, salienta-se a importância de ressaltar o marxismo como a ciência que busca
compreender, a partir da totalidade das relações sociais de produção, um sistema com caráter
expansivo e voraz, que avança irrestritamente sobre pessoas e territórios e só se efetiva no
internacional. O marxismo é, portanto, uma ciência internacionalista, que está diretamente
ligado às Relações Internacionais por meio do imperialismo (Osório, 2019b), e se configura
também como teoria deste campo (Garcia, 2019).
Apesar de ser um esforço contínuo, o debate da relação entre marxismo e Relações
Internacionais se consolidou tardiamente no meio acadêmico, sendo incorporado à disciplina
como corrente de pensamento reconhecida somente em 19801

, com as contribuições de
Robert Cox (Garcia, 2013; Vigevani et al., 2011; Míguez, 2020; Kan; Jaquenod; Pascual,
2020; Jaquenod 2020). Nesse marco inaugural, o pioneiro utiliza categorias marxistas
gramscianas, de modo a aplicar o conceito gramsciano de hegemonia para o escopo
internacional (Jaquenod, 2020), tal qual Stephen Gill (Míguez, 2020), Mark Rupert, Adam
Morton, William Robison, dentre outros (Garcia, 2013), assim como abordar os processos de
internacionalização das classes e o lugar dos Estados na transmissão da globalização (Kan;
Jaquenod; Pascual, 2020). As últimas décadas são, então, centrais para a constituição das
Relações Internacionais como campo específico de crítica marxista (Kan; Jaquenod; Pascual,
2020).

1 No entanto, as compreensões que antecederam a consolidação no meio acadêmico são igualmente importantes
para entender a contradição entre internacional e nacional, especialmente as contribuições marxistas da década
anterior, que realizaram uma nova leitura de Marx no âmbito do Estado (Pascual, 2025; Miguez, 2020).

No entanto, deve-se reconhecer que, tanto no campo científico como no acadêmico, a
literatura tida como dominante iniciou as formulações acerca do internacional apenas a partir
da I Guerra Mundial (Osório, 2018, 2024), que se revela como um marco do estudo das
Relações Internacionais como disciplina autônoma (Gouvêa, 2012). Nesse sentido, em
contraponto, deve-se frisar que é o marxismo que inaugura o debate deste campo analítico,
evidenciando-se como uma vanguarda científica essencial para o surgimento da própria
disciplina de Relações Internacionais. Enquanto a criação da cátedra da disciplina ocorreu em
1919, no Reino Unido (Osório, 2019b), o marxismo já desenvolvia fortemente debates acerca
do internacional, mostrando-se avançado em relação a análise das relações internacionais
como campo científico.
Desde as formulações marxianas, a tradição marxista continuou e aprofundou as
reflexões sobre o modo de produção capitalista a partir de uma análise a nível global. Se n’O
Capital Marx apontava para a tendência internacionalizante do capital, seus sucessores
puderam ir além e apontar outros fenômenos relacionados às dinâmicas de acumulação de
capital, como o próprio imperialismo. Notoriamente, Osório (2018) ressalta os extensos
debates travados na II Internacional (1889-1914), que, além de gestar as ideias pioneiras
sobre o imperialismo, evoluíram na análise concreta do internacional para as formulações
teóricas e práticas do movimento comunista ao redor do mundo.
Nesse ínterim, a também chamada Internacional Socialista se configurou como uma
organização internacional que reuniu delegados de diferentes partidos nacionais, tendo
travado debates em torno da compreensão das novas características do desenvolvimento
capitalista e da forma de análise das contradições entre as esferas nacional e internacional,
produtiva e bancária, e monopólio e concorrência (Gouvêa, 2012). As concepções
desenvolvidas no âmbito da II Internacional convergiram para a controvérsia acerca do
imperialismo, da qual emergiram questões teóricas e práticas fundamentais para as relações
internacionais, contribuindo para a constituição das Relações Internacionais como campo
científico (Osório, 2024, 2018).
Apesar de não falar exatamente em Imperialismo, Marx realizava análises sobre
Relações Internacionais e fertilizou ideias posteriores. Pode-se afirmar que o sociólogo
fornece as bases (e o método) para uma compreensão do sistema global enquanto integrado,
uma vez que desmistifica todo o processo de acumulação de capital e já o inclui dentro de
uma dinâmica com os países “pré-capitalistas”. Ao desenvolver propriamente em sua obra
magna, o Capital, Marx chega à conclusão de há “o entrelaçamento de todos os povos na rede
do mercado mundial e, com isso, o caráter internacional do regime capitalista” (Marx, p.

2017, 832). Sendo assim, explicita-se, nessas formulações, os alicerces do processo histórico
que vai se desenvolvendo com a formação de colônias ligadas a subjunção de suas produções
internas voltadas para o mercado externo.
Segundo Garcia (2019), Marx identificou transformações constitutivas do mundo
moderno, como a expansão global do comércio e o caráter cosmopolita da burguesia,
simultaneamente aos processos de unificação política e econômica dos territórios nacionais
europeus e à formação dos Estados nacionais em substituição à fragmentação do poder
feudal. Desse modo, a tensão entre as dimensões global e nacional, posteriormente associada
ao período da “globalização”, já se encontrava presente no Manifesto do Partido Comunista
(1848), a obra pioneira escrita por Marx e Engels antes do primeiro volume d' O Capital,
Além disso, Furno (2022) aponta que no Manifesto Comunista são apresentadas as
bases para entender o fenômeno do imperialismo. Para a autora, os intelectuais alemães
elencam três aspectos que demonstram o germe do imperialismo na análise marxista do
capitalismo: 1) a atuação da “artilharia pesada” das grandes potências no comércio
internacional por meio da possibilidade de redução do preço final das mercadorias para
conquistar o mercado e superar a livre concorrência - ou seja, para alcançar melhores
condições para a reprodução ampliada, a primeira forma empenhada pelos países
desenvolvida era o mecanismo dos preços baixos; 2) a expansão do modo de produção
capitalista a nível global; 3) o progresso do capitalismo sobre as demais nações,
principalmente por meio do encurtamento de distâncias permitido pelas inovações técnicas
nos transportes, que criavam também melhores condições para a exportação de capitais
(Furno, 2022).
Desse modo, evidencia-se que o intelectual alemão foi capaz de delimitar a tendência
expansiva e internacionalizante do capital antes mesmo de vê-la com vida (Osório, 2018,
2019b; Gouvêa, 2016; Furno, 2022). Nesse sentido, a análise marxiana é essencial para
compreensão do movimento do capital, que perdurou a partir do desenvolvimento das
relações de exploração pelo mundo, as quais podem se modificar em sincronia com a
trajetória do desenvolvimento das forças produtivas e das relações sociais de produção no
território.
O florescimento das sementes plantadas pela teoria marxiana se refletiu no sucessor
esforço teórico para o desenvolvimento da teoria do imperialismo, que se desdobra até hoje.
Desde os debates inaugurais, diferentes teóricos marxistas buscaram formular sobre
imperialismo, deixando uma gama de produção intelectual conforme o passar das décadas.

Para auxiliar na sistematização teórico-metodológica, Osório (2018) categoriza-os a partir de
três principais debates: 1) Debate pioneiro: pensamento do final do século XIX e do início do
século XX que introduz uma visão economicista, agrupa as obras de Rudolf Hilferding, Rosa
Luxemburgo, Karl Kautsky, Nicolai Bukharin e Vladimir Lenin; 2) Debate fordista:
formulações sobre Imperialismo produzido em meados do século XX, após a crise de 1929,
sob o suporte do fordismo, até 1970 (1945-1970), nas quais se encaixam a escola do capital
monopolista, fundada por Baran e Sweezy, a Teoria Marxista da Dependência, fundada por
Marini, dos Santos e Bambirra, e, por último, as obras sobre sistema-mundo de Wallerstein e
Arrighi, em conjunto com a obra de Samir Amin sobre trocas desiguais; 3) Debate
pós-fordista: compreensão do Imperialismo em meados da década de 1970 até os dias atuais,
que compreende as obras de Hardt e Negri, Panitch, Poulantzas, Harvey, e no escopo da
Teoria da Derivação, as contribuições de Miéville sobre direito internacional no século XXI,
assim como de Hirsch e von BraunMühl, que debatem, respectivamente, a vertente da teoria
materialista do Estado e do mercado mundial alemão.
Para os objetivos do presente trabalho, a ênfase se dará no Debate Pioneiro e no
Debate Pós-fordista, sendo essencial resgatar o contexto teórico-histórico para situar o leitor
frente ao objeto. De forma mais concreta, a pesquisa busca compreender a contradição
entre a internacionalização e a nacionalização do processo de acumulação
capitalista/interesses capitalistas no que tange o Imperialismo e o Mercado Mundial nas
teses de Nikolai Bukharin em comparação com Claudia Von BraunMühl; com intenção
de responder a seguinte pergunta: como é abordada a contradição entre
internacionalização e nacionalização do processo de acumulação nas obras de Bukharin
em comparação com Von BraunMühl, especificamente no debate sobre imperialismo e
mercado mundial? O problema de pesquisa desenvolve-se a partir da hipótese que voltar
aos clássicos é necessário, pois inspira os teóricos atuais, de modo a demonstrar uma
relação de continuidade, visto que ambos explicam a principal contradição das Relações
Internacionais no imperialismo: o nacional e o internacional.

 


MEMBROS DA BANCA:
Interna - 2077480 - ANA ELISA SAGGIORO GARCIA
Interno - 1898171 - LUIZ FELIPE BRANDAO OSORIO
Externo à Instituição - RODRIGO FEDERICO PASCUAL
Notícia cadastrada em: 13/08/2026 16:56
SIGAA | Coordenadoria de Tecnologia da Informação e Comunicação - COTIC/UFRRJ - (21) 2681-4638 | Copyright © 2006-2026 - UFRN - sig-node3.ufrrj.br.producao3i1