A CONSTRUÇÃO DE UMA FLORESTA: ANÁLISE SOBRE A EVOLUÇÃO DA PAISAGEM DA FLONA MÁRIO XAVIER - SEROPÉDICA, RJ
Biogeografia; Unidades de Conservação; Ecossistemas antropogênicos; Evolução da paisagem.
A paisagem, categoria fundamental dos estudos geográficos, é a materialização da relação de interdependência firmada entre os seres humanos e a natureza. As intensas transformações dos ditos ecossistemas naturais pela ação antrópica são resultantes da evolução das técnicas. Neste sentido, observa-se a multiplicação de ecossistemas intensamente alterados pelas ações de ordem antropogênica e que evoluem com características muito distintas das originais. No campo da Biogeografia e da Ecologia, os chamados novos ecossistemas surgem como temática que aborda a criação, a evolução e a consolidação desses ecossistemas. O objetivo desta dissertação é analisar a evolução da paisagem da área que hoje compreende a Floresta Nacional Mário Xavier (Flona MX), desde a criação do Horto Florestal de Santa Cruz na década de 1940 até o contexto atual, considerando o histórico de uso e ocupação da terra, a reestruturação da vegetação através dos processos naturais e antrópicos e as pressões contemporâneas que afetam diretamente a estrutura e a composição desse ambiente. Os objetivos específicos buscaram identificar as características fitogeográficas da paisagem ao longo dos anos; identificar os agentes e processos envolvidos nas mudanças ocorridas nas paisagens durante os anos; e debater a possibilidade da caracterização da Flona MX como um novo ecossistema a partir do panorama ambiental atual. A Flona MX é uma unidade de conservação de uso sustentável, com área de 496 hectares, localizada no município de Seropédica, região metropolitana do Rio de Janeiro. É um dos poucos fragmentos florestados do município, abrigo para diversas espécies de fauna e flora, dentre espécies endêmicas e ameaçadas de extinção. A construção da pesquisa ocorreu por meio de duas etapas metodológicas. A primeira consistiu na análise da evolução da paisagem por meio de fotografias históricas das décadas de 40 e 50, parte do acervo da unidade de conservação, que foram identificadas na paisagem através de trabalho de campo e comparadas a fotografias atuais. A segunda etapa foi a elaboração de mapas de uso e cobertura da terra dos anos de 1990, 2000, 2010 e 2020. As classes de uso e cobertura da terra definidas foram: floresta, formação natural não florestal, urbano, área não vegetada, pastagem, mosaico de agricultura e pastagem e água. Os produtos cartográficos foram elaborados por meio do software QGIS com a utilização de dados da plataforma MapBiomas, coleção 7.1. A análise cartográfica teve por objetivo compreender as transformações observadas nas paisagens ao longo dos anos. Em ambas as etapas o trabalho de campo e o levantamento bibliográfico foram fundamentais para a compreensão dos agentes e processos responsáveis pelas transformações da paisagem. As discussões da Flona MX como um novo ecossistema considerou a estruturação conceitual proposta por Morse et al. (2014) e o exame dos elementos necessários após as análises propostas. Os resultados da comparação fotográfica indicaram o aumento da cobertura vegetal dos pontos selecionados em razão de processos naturais e antrópicos, sendo possível identificar na paisagem indivíduos arbóreos em diferentes estágios de sucessão ecológica. Os recursos cartográficos indicaram aumento de 41% da classe “floresta” entre os anos de 1990 e 2020, representando até o presente momento 39,8% da área total da UC. As classes de mosaico de agricultura e pastagem e pastagem também representam parte significativa da cobertura da terra, com área total de 39,4% e 14,4%, respectivamente. As pressões antrópicas identificadas como sendo de maior significância são as queimadas e a supressão da vegetação por efeito da fragmentação da UC pelas rodovias BR-493 e BR-116. A caracterização da área como um novo ecossistema tem como desafio futuro a comprovação da sustentabilidade funcional desse fragmento após manejo adequado.