Tecido literário, bordado geográfico: corpo, terra e mímesis em Torto Arado
mímesis, literatura, geografia, corpo, terra.
Publicado pela editora Todavia no ano de 2019, o romance Torto Arado logo adquiriu notoriedade nacional e internacional por meio de prêmios e traduções. Redigido por Itamar Vieira Júnior, trata-se de obra marcada pelo protagonismo de duas mulheres negras cujas vivências rurais no interior do Brasil trazem consigo as marcas de um povo abandonado à própria sorte no transcorrer do longo processo (ainda em pleno curso) de conquista de direitos após a abolição da escravatura em 1888. Além da evidente contemporaneidade de um livro dessa natureza, atraiu-nos também o fato de ter sido escrito por um geógrafo de formação atuando como funcionário do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária na Bahia. A correspondência entre estes aspectos e o forte conteúdo social do romance, desenhado do início ao fim pela estética “paisagística” de sua narrativa, nos levou a analisá-lo como um tecido literário bordado pelo geografia — com destaque para as categorias corpo e terra. Para tanto, apoiar-nos-emos no conceito de mímesis trabalhado pelo teórico da literatura Luiz Costa Lima, cuja reflexão tem ampliado nosso entendimento sobre a natureza da ficção literária e suas tramas históricas, sociais e intelectuais.