A TERAPIA FOCADA NAS EMOÇÕES NO CONTEXTO DO TRAUMA RACIAL:
PROPOSTA DE APLICAÇÃO CLÍNICA EM ADULTOS NEGROS
Palavras-chave: trauma racial; racismo; Terapia Focada nas Emoções; regulação emocional;
adultos negros.
O trauma racial constitui um fenômeno cumulativo, crônico e historicamente situado,
produzido pela exposição direta e indireta a diferentes formas de racismo, com repercussões
sobre a experiência emocional, o corpo, as relações e os processos de regulação emocional.
Apesar do crescente reconhecimento científico do fenômeno, permanecem lacunas
conceituais e clínicas, especialmente quanto à compreensão de seus processos emocionais e à
incorporação dessas evidências à prática psicoterapêutica. Levando esses fatos em
consideração, esta dissertação teve como objetivo elaborar uma proposta contextualizada de
aplicação clínica de um protocolo fundamentado na Terapia Focada nas Emoções, para o
cuidado de adultos negros com experiências de trauma racial, com base das evidências da
literatura científica sobre trauma racial e contribuições da filosofia da racialidade. Trata-se de
uma pesquisa qualitativa, aplicada, exploratória e propositiva, desenvolvida por meio de uma
revisão integrativa da literatura; da elaboração da proposta de aplicação clínica e de uma
vinheta clínica fictícia destinada a ilustrar a operacionalização da proposta. A revisão
integrativa, realizada nas bases PubMed, Scopus, PsycINFO, Web of Science e Biblioteca
Virtual em Saúde, identificou 1.437 registros, dos quais 42 atenderam aos critérios de
elegibilidade. A análise de conteúdo de Bardin resultou em 4 categorias: estressores raciais
associados ao trauma racial; respostas emocionais; processos de regulação emocional; e
fatores de proteção e vulnerabilidade. Os achados evidenciaram o caráter cumulativo e
crônico do trauma racial, marcado por medo, hipervigilância, raiva, sofrimento depressivo e
manifestações somáticas, bem como por estratégias regulatórias cuja funcionalidade varia
conforme o contexto. A articulação desses resultados com a filosofia da racialidade e os
fundamentos da TFE permitiu compreender que estratégias como hipervigilância e supressão
emocional podem adquirir funções adaptativas diante de contextos racializados de ameaça,
embora sua manutenção possa produzir sofrimento. A proposta clínica resultante preserva a
arquitetura processual, os marcadores, as tarefas e os mecanismos de mudança do protocolo,
não propondo novas técnicas, mas uma ampliação da formulação clínica por meio da empatia
situada, incorporando as experiências de racialização e suas condições históricas, sociais e
relacionais à compreensão do processamento emocional. Conclui-se que a Terapia Focada nas Emoções oferece fundamentos processuais consistentes para o cuidado do trauma racial
quando o sofrimento é compreendido sem dissociar a experiência emocional dos contextos em
que foi constituída, evitando a patologização de estratégias de sobrevivência e favorecendo
processos de reconhecimento, autorrespeito, pertencimento e transformação emocional.