Entre curandeiros, rezadeiras e benzedeiras: o percurso de uma tradição em Vassouras/RJ, desde s.XIX
Vassouras (RJ); rezadeiras; benzedeiras; tradição; referência cultural; políticas públicas
O presente estudo tem como objeto a análise dos aspectos da memória das rezadeiras e benzedeiras, apreendidos a partir da observação do campo devocional dessas mulheres, na perspectiva das heranças culturais e dos processos de partilha que articulam elementos das tradições africanas, saberes indígenas e rituais cristãos, constitutivos da formação social em Vassouras no século XIX. Apesar dos avanços da medicina científica e de sua crescente articulação com as tecnologias contemporâneas, observa-se a permanência dessas práticas no tempo presente, uma vez que a população local continua a recorrer às rezadeiras e benzedeiras em busca de cuidado para enfermidades que atravessam as dimensões física, espiritual e emocional. Apesar da relevância histórica e cultural dessas práticas, observa-se uma lacuna no campo acadêmico e institucional quanto ao seu mapeamento sistemático e à compreensão de sua dinâmica contemporânea, especialmente no que se refere aos processos de invisibilização produzidos no interior das políticas de memória e das dinâmicas de racismo religioso. Nesse contexto, a pesquisa investiga a gênese histórica da tradição da reza e do benzimento, articulando-a à análise de sua dinâmica contemporânea por meio do mapeamento de suas atuais detentoras, com o objetivo de compreender se os processos de ressignificação cultural que atravessam essa prática, bem como as formas pelas quais o racismo religioso, em diálogo com as dinâmicas institucionais e as políticas públicas, contribuem para a produção de sua invisibilidade. Do ponto de vista metodológico, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica, documental e empírica, articulando a análise historiográfica, a observação das práticas e a interpretação da oralidade enquanto performance do saber, conforme proposto por Leda Maria Martins, compreendendo a memória como dimensão incorporada e atualizada no corpo e na experiência ritual das rezadeiras. A análise se ancora nos conceitos de partilha cabocla, como princípio constitutivo das identidades e das cosmologias que sustentam a continuidade da tradição. Dialoga, ainda, com a perspectiva da colonialidade do poder, desenvolvida por Quijano, a fim de compreender os processos de hierarquização, deslegitimação e invisibilização dos saberes afro-indígenas no interior dos regimes oficiais de reconhecimento. Nesse sentido, o estudo busca contribuir para o debate sobre memória, patrimônio cultural e religiosidade popular, evidenciando os processos históricos e contemporâneos que envolvem a permanência e a invisibilização da tradição da reza e do benzimento em Vassouras entre os séculos XIX-XXI.